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O campanário da Igreja de São Paulo, no Cais do Sodré, enquadrado a partir do Atelier São Paulo Arquitectos (ASPA), adquire uma expressão enfática. Este momento arquitectónico ocupa o ambiente e a perspectiva a partir do interior do espaço físico de ASPA, revelando-se como metáfora do trabalho desenvolvido pela dupla de arquitectos José Maria Cumbre (1980) e Nuno Sousa Caetano (1978). 

A densidade que qualifica a cidade antiga tem sido o campo de experimentação deste gabinete formado em 2005. É na cidade herdada, compacta, aparentemente carente de áreas disponíveis, que têm sido criados novos limites, reinventando-se territórios improváveis. Trata-se de um processo de colonização que tem permitido construir lugares com uma relação de intimidade com espaços urbanos e preexistências. É um trabalho realizado nas franjas da cidade, nos enrugamentos que a arquitectura é capaz de criar. Uma busca intensa por gerar novos corpos dentro de corpos já existentes. 

A ideia de paisagem é, em ASPA, filtrada através de uma formulação de índole artística, promovendo-se, por essa via, uma aproximação com o campo arquitectónico. É, porém, no exaustivo exercício do desenho que se vai assumindo a necessária autonomia disciplinar da arquitectura.

A remodelação de um apartamento em Campo de Ourique (2007-2008), apesar da pequena escala, expressa a apropriação de uma área de limite. Um novo volume, desmaterializado em vidro, apodera-se dos territórios híbridos das traseiras de um edifício, voltadas para um banal miolo de quarteirão. É na precariedade deste limite que se acomoda a nova e clínica edificação de uma instalação sanitária. Esta nova instalação desafia a ideia pré-intuída de privado, exibindo-se nesta espécie de hinterland urbano através de uma franca abertura. O novo corpo envidraçado, adoça-se ao edifício existente, recusando-lhe qualquer tipo de fusão, o novo corpo é híbrido e artificial, contrapondo-se à densidade material do preexistente.

O espaço doméstico foi também tratado num projecto para a Rua da Junqueira, Lisboa (actualmente em fase de obra). Uma dualidade é expressa na convivência de um piso elevado com uma estrutura habitacional existente. O piso elevado surge da oportunidade ambígua de ampliação de um espaço dentro de si mesmo. A dualidade acentua a evocação de uma espécie de reprodução por fragmentação. O contraste de um novo “vulto” negro, desmultiplicado caleidoscopicamente em reflexos espelhados, emerge na oportunidade de intervir num volume de 5,20 m, até ao momento oculto por um tecto falso. A operação realiza-se com base na máxima compressão de algumas áreas funcionais, como circulações e instalações sanitárias. O resultado é a tangência de duas realidades que se sobrepõem sem se fundirem em nenhum momento.

O próprio Largo de São Paulo, na proximidade do atelier, serviu de base para um dos primeiros ensaios exploratórios da ideia de limite em contexto urbano. Em reposta ao concurso da I Trienal de Arquitectura de Lisboa, reflectiu-se o vazio em torno de uma tipologia urbana. Na estrutura encerrada do largo foi possível encontrar uma geometria capaz de receber um novo corpo multifuncional que, apesar da sua delicadeza, constrói um novo quadro de relações e de percursos. O novo corpo, criando uma subestrutura, reforça uma interioridade e medeia um quadro de novas relações inter-espaciais. Os rendilhados das serralharias pombalinas servem de padrão para o recorte da membrana metálica que envolve um conjunto de áreas sem programa pré-definido.  

É a experiência do concurso da Trienal que serve de base para o mais relevante projecto de ASPA, o bar Le Chat, no Jardim 9 de Abril, entre o museu de Arte Antiga e a arrebatadora vista panorâmica do estuário do Tejo na Rocha Conde de Óbidos. As qualidades deste projecto permitiram que José Maria Cumbre e Nuno Sousa Caetano fossem nomeados para o Great Indoors Award 2011 e que conquistassem o Prémio Enor 2011.

O bar Le Chat coloniza a cobertura decadente de um antigo armazém. O novo bar prolonga o Jardim 9 de Abril, para um espaço que agora se transfere para a esfera pública. O bar surge pairando num lugar remanescente, que até à chegada desta nova ocupação permanecia como resíduo de uma actividade portuária inactiva. 

O edifício de Le Chat é uma cápsula de vidro sem arestas; o seu interior, forrado a espelhos, reflecte a envolvente, desmaterializando ainda mais a estrutura edificada deste novo edifício que, artificiosamente, recusa a sua firmitas. O novo bar existe, paradoxalmente, sem existir; são os fluxos de pessoas, as cambiantes atmosféricas dos dias e as nuances da paisagem que, ao encontrarem-se com este edifício, se ampliam expressivamente. Fernando Guerra captou numa sessão fotográfica a diluição do edifício na bruma de um dia de nevoeiro, sugerindo-nos o encantamento de uma pintura de Turner. Em contraste com a tematizada ampliação do Museu Nacional de Arte Antiga de Guilherme Rebelo de Andrade (1935-1940), o bar Le Chat, posiciona a resposta arquitectónica na efemeridade das coisas que ali acontecem, sendo que, quando nada acontece, o edifício desaparece esbatendo-se na sua envolvente, passando de estado sólido a uma diluição líquida, evocando por essa via a particularidade contemporânea que Ignasi Solà-Morales foi capaz de encontrar no seu escrito de 19981, onde reflectia sobre uma vertente da própria arquitectura que não podia expressar-se pela forma ou pela matéria. A pormenorização do Le Chat é precisa: reforçando nos detalhes as intenções do todo, os brilhos espelhados surgem na espessura dos envidraçados que compõem a caixilharia deslizante, especialmente projectada para o local; a contingência dos pilares estruturais foi desmaterializada no desfasamento do seu alinhamento; na cobertura foram afinadas as formas resultantes dos aparelhos de extracção, procurando-se a harmonização do quinto alçado com a envolvente. 

A intensa experiência de construção nas porosidades da cidade configura a possibilidade de intervenção no momento contemporâneo: é a partir do vazio que existe a possibilidade de influir sobre o todo construído, é a partir do vazio que podemos introduzir processos regeneradores, contudo, é também o vazio um fundamental elemento de descongestionamento da densidade metropolitana, potenciador de espaço público e catalisador de relações sociais2|


 

1 Ignasi Solà-Morales. Arquitectura líquida. in Territórios. Barcelona : Gustavo Gili, 2002. Ed. orig. 1998.

Paulo Tormenta Pinto. A periferia ausente: dois casos de aglomerados habitacionais de custos controlados em Portugal contemporâneo. [Em linha.] in Simpósio Ibero-americano Cidade e Cultura: Novas Espacialidades e Territorialidades Urbanas (SILACC 2010), São Carlos (Brasil), Departamento de Arquitetura e Urbanismo, da Escola de Engenharia de São Carlos, 29 de Agosto e 1 de Setembro de 2010. (Consult. Fev. 2012). Disponível em:http://webcache.googleusercontent.com/search?q=cache:4qSr-pDtJfIJ:repositorio.iscte.pt/bitstream/10071/2362/1/Periferia Ausente PTP.pdf "SIMPÓSIO

 


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