PT/EN

Vasco Nobre Lopes (VNL – Guarda, 1984) é um jovem arquitecto fora da moda.
     A moda, recordemo-lo, enquanto conceito matemático, regista a frequência com que determinado fenómeno, “mensurável” (altura, idade, cor dos olhos, cérceas, etc.), ocorre numa sequência, sendo igual ao valor que surge mais vezes numa observação. E, no seu já denso curto período activo, VNL foge, realmente, a um “padrão” mais ou menos reconhecível entre os jovens arquitectos portugueses.
     Entrou para o curso de Arquitectura em Lisboa (Universidade Autónoma de Lisboa, 2002-07), um pouco por acaso, porque “chumbou” no acesso à Academia Militar, onde o pai o gostaria de ter visto seguir uma mais pragmática engenharia.
     Envolveu-se muito depressa com Arquitectura; descobriu muita coisa, começou a viajar. Tinha já ligações ao que insiste chamar o “mundo real”: ajudara os pais na construção da primeira casa da família, acartara e assentara tijolos. Quando viu pela primeira vez a Arquitectura popular em Portugal (1961), orgulhou-se de encontrar, no meio dos exemplos recolhidos, a capela e o alpendre de apoio à feira de Caçarelhos (Miranda do Douro), a aldeia do pai.
     Com uma educação moderadamente católica, foi escuteiro entre os cinco e os 18 anos, retirando, do que essa organização cívica lhe deu, o que lhe parecia interessar. Hoje, mantém-se activo muito por causa de um projecto na Serra de Arouca, São Pedro do Sul, à volta da aldeia de Drave, encravada num fundo de vale, inacessível por automóvel.
     Numa aldeia de xisto, completamente desabitada, sem abastecimento de água, sem rede eléctrica ou de telemóvel, o Corpo Nacional de Escutas (CNE) comprou e recupera, agora, algumas casas para se virem a constituir em apoio a uma espécie de Retiro Espiritual para jovens. Já tinha entrado em Arquitectura, quando se envolveu no grupo que, durante o Verão, recupera a aldeia. Eram considerados os “arquitectos” (ele e Renata Polónia, que conhecera no CNE, à época aluna da Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto); não do ponto de vista do desenho, porque nunca chegaram a desenhar nada, mas do ponto de vista “técnico”. Recuperam primeiro as coberturas, com novas estruturas de madeira, chapas onduline, as antigas lousas a rematá-las. Tudo trazido à mão, desde a estrada, meia-hora a pé, lá em cima. Uma vez transportaram também um contentor para água, em fibra de vidro, com capacidade para 1200 litros. Foi uma aventura, pô-lo a rolar em cima de tarugos, à força de braços, pelo caminho sinuoso e estreito. Quatro horas de esforço!
     As várias Comissões de Serviço de Verão foram-se sucedendo, recuperando casas, muros de suporte, abrigos de montanha para pastores, desbravando mato para voltar a abrir caminhos de transumância.
     Já não comungará de todos os princípios da Associação, mas dos “princípios de reconstrução”. A mão-de-obra é voluntária, como a colaboração de VNL, rapazes e raparigas dos 18 aos 22 anos. Mão-de-obra sem grandes instrumentos mecânicos de auxílio; não há um limite temporal, a aldeia ficará reconstruída quando ficar. Acampam. Pagam-lhes as viagens e as refeições. O resto é por gosto de ir vendo tudo a ficar recuperado. Montaram um anfiteatro, a meio da encosta, com caibros reciclados dos caminhos-de-ferro. Fizeram duas pontes, “um bocado empíricas”, e umas casas de banho, forradas a madeira por fora (para elas carregaram o contentor de 1200 litros).
     VNL preferiu não fazer Erasmus; não porque não fosse dos melhores alunos, ou porque os pais não o pudessem ajudar, mas porque sempre achou que poderia ter uma experiência fora, mais tarde, quando acabasse os estudos e já pudesse ganhar algum dinheiro.
     Concluído o curso, comprou um inter-rail com as poupanças das colaborações esporádicas em ateliers. Foi largando portfolios pelo caminho. Não procurava escritórios grandes e “famosos”. Empreendeu que iria para um atelier “pequeno”, com produção interessante, mas ligado à construção, a um lado mais pragmático de obra, em que pudesse também participar. Em Genève, estacionou porque vivia lá o seu amigo Bruno Cerejo com quem tinha feito o curso em Lisboa. Oleg Calame (n. 1961), arquitecto em Genève, estava então interessado num estagiário e aceitou-o.
     Colaborou em concursos públicos e acompanhou o ritmo do pequeno atelier (quatro pessoas, para além de Calame).
     No primeiro dia em que começou a trabalhar, Oleg Calame deu-lhe um papelinho com as medidas do Modulor dizendo-lhe: “Não inventas medidas nenhumas, tudo o que precisares vens aqui buscar.” Todos os colaboradores tinham o mesmo papelinho (ainda o guarda na carteira).
     Acabou por partilhar uma casa com dois pedreiros portugueses em Meyrin, subúrbio modernista de Genève; em baixo, no mesmo prédio, a sede da empresa (portuguesa) de construção para quem trabalhavam; ao lado, o café e o talho portugueses; em frente a Casa do Benfica.
     Apercebeu-se da realidade da emigração portuguesa na Suíça; da dureza daquela vida; da exploração por patrões portugueses.
     Viajou, visitou muita arquitectura: La Tourette, Ronchamp, Unité de Marselha, Vitra, Fabrica Ricola. Se já não era, ficou fã de Le Corbusier. Conheceu trabalhos de Jean Prouvé e a Cité Manifeste de Anne Lacaton e Jean Philippe Vassal.
     Diz que, um dia, gostaria de concorrer ao Prémio Távora, com uma viagem planeada para conhecer em profundidade as obras de Prouvé.
     Nos Bassicarella Architects, Bruno Cerejo dava assistência à obra de recuperação da Maison Clarté de Le Corbusier (com Jean Pierre Jeanneret, 1932); ia com ele à obra, adorava mexer nos puxadores, andar naqueles espaços.
     Em Meyrin impressionava-se com o enorme bloco de habitação social, o Lignon (Georges Addor, 1963-71), com mais de um quilómetro de comprido, lindíssimo, uma língua enorme serpenteando com piscinas pelo meio.
     Concluído este “estágio”, VNL regressou a Lisboa e foi trabalhar com Inês Lobo. Está lá há três anos. Tornou-se um colaborador indispensável. Quando entrou eram 12; agora são cinco e nunca pensou ser um dos que ficasse.
     Colaborou num projecto de Inês Lobo para a Bienal de São Paulo – uma escola para Cabo Verde; a partir daí começou a ganhar vontade e gosto em participar noutro tipo de projectos, mais “emergentes”. A oportunidade surgiu quando, depois de um grande tsunami em 2010, o Governo Regional de Bío Bío lançou o Concurso Internacional de Ideas de Anteproyecto para el Diseño de una Vivienda Social Costera, para testar protótipos de habitação em zonas de risco: uma casa mínima, com 50 metros quadrados, obrigatoriamente elevada três metros do solo, de modo a resistir a futuros tsunamis. VNL classificou-se em primeiro lugar.
     Não sabe fazer 3D e, então, faz à antiga, rebate os alçados e dá-lhes “profundidade”; num mundo cheio de imagens, renderings e grafismos glamorosos, destaca-se pela objectividade do dizer, pela autenticidade de como o diz, comunica e representa. A “novidade” da proposta talvez se fique a dever ao modo como os quatro pilares (em blocos de betão) que sustentam a casa (em madeira forrada a chapa metálica) são já parte duplamente útil: VNL fez coincidir os sólidos pilares com os lugares das infra-estruturas, garantindo a  possibilidade de uma reconstrução “ligeira” em caso de catástrofe.
     Face às dificuldades em receber o prémio garantido pelo seu primeiro lugar (cerca de 6000 €), chegou a propor à organização que esse dinheiro fosse canalizado para a construção do protótipo. Queria o dinheiro, mas preferia que lhe construíssem a casa; depois, até poderia ficar para ele ou ser usada como exemplo.
     Fez o projecto sozinho. Como é que se faz uma construção anti-tsunamis? Passou uma semana a ver filmes no YouTube para perceber o que são estas áreas devastadas; sentiu-se confrontado com um tema que, verdadeiramente, desconhecia.
     Procurou dar uma resposta de Resistência. Escreveu na Memória Descritiva, colocando-se na pele dos pescadores pobres para quem desenhou as casas, que o lema daquela gente deveria ser sempre Resistir:

RESISTIR, tener ganas de resistir. Resistir en este contexto significa permanecer. Permanecer en el lugar, en la costa a lo largo del mar. Aqui resistir es tener la capacidade de adaptar-se constantemente a los elementos externos hostiles que caracterizam tan dura realidade. No resistir significa perder.

     Com o dinheiro do prémio (retirados os impostos, no Chile, e a taxa de câmbio, apenas 4000 €), comprou um bom computador e continua a trabalhar em casa, sozinho, ao fim do dia, depois da sua colaboração regular no atelier. Agora, decidiu lançar-se noutra aventura/concurso, este promovido por uma ONG, Building Trust International, para uma escola primária no Myanmar (antiga Birmânia). Curiosidade: a inscrição no concurso reverte já a favor da própria construção da futura escola.
     Estudou a hipótese de módulos de betão pré-fabricado como os box culverts das auto-estradas, investigou a possibilidade de armar o betão com bambu. Os caixotes em “U” justapõem-se, formando “um comboio”. As cofragens de teca (Myanmar é o primeiro exportador mundial de madeira de teca) servem depois para estruturar as coberturas da Escola.
     Para as divisórias interiores, propôs esquadros de madeira emoldurando entrançados de palha; aberturas redondas, ao longo do corredor, criam uma circulação interior e simultaneamente exterior. É uma escola para crianças que vivem em campos de refugiados. No “desvão” da cobertura pensou em espaços de leitura, com acesso a partir de escadas simples, em madeira.
     “Este é o meu universo; o mundo em que me envolvo.”
     VNL é um admirador das Conversas vadias (Série de 13 entrevistas conduzidas por personalidades diferentes, gravadas em 1990, RTP1) do Professor Agostinho da Silva (1906-94), que bisbilhota no YouTube. Admira o “pensamento vivo” proposto por Agostinho da Silva, questão que o leva a pensar em alternativas aos modos mais ou menos convencionados de fazer as coisas.
     Também admira o arquitecto e activista espanhol Santiago Cirugeda (n. 1971), nomeadamente quando este reflecte sobre novas formas de trabalho menos dependentes da encomenda pública. VNL acredita que há outras maneiras de entrar na profissão e pensa que deverá ser, sobretudo, por um “lado mais realista”. Como é que com um mínimo se poderá fazer qualquer coisa? Continuam a existir necessidades, apesar da crise, e os arquitectos terão de reinventar os modos de actuar. Quer ficar por aqui, não quer emigrar, e procurar responder a estes problemas. Problemas como a economia de recursos, já que se praticaria pouco um tipo de pensamento “económico”.
     Tem “nostalgia” de um tempo em que a beleza resultava do próprio modo de construir, e lembra-nos o que o surpreendeu ao ver o Pavilhão de Ténis de Fernando Távora pela primeira vez. Preocupa-o o “esbanjamento”; que as pessoas gastem dinheiro e depois tenham que viver em casas mal feitas, ou “artísticas”.
     Não quer emigrar, muito menos procurar um atelier fashionable na Europa; mas se tiver que ser, envia o curriculum para uma open position nos Architects for Humanity, para ir fazer escolas para o Chile ou ajudar a montar campos de refugiados na Serra Leoa. “Quando se acabar o trabalho cá, vou para uma coisa dessas... no Haiti há sempre available positions; o pior é a minha mãe, que entra em prantos...”
     VNL é, realmente, um jovem arquitecto fora da moda. |

 


VER mais novos #234
VER mais novos #235
VER mais novos #236
VER mais novos #237
VER mais novos #238
VER mais novos #239
VER mais novos #240
VER mais novos #241
VER mais novos #242
VER mais novos #244
 FOLHEAR REVISTA