Oscar Niemeyer é uma personalidade que se destaca pela inovação e pela sua participação activa na luta por um mundo melhor. Natural do Rio de Janeiro, o arquitecto trabalha diariamente no seu escritório em Copacabana onde nasce a maioria das suas criações. Posteriormente, o desenvolvimento dos projectos é entregue a cada um dos colaboradores distribuídos entre o Rio de Janeiro e Brasília.
Enquanto finalista do curso de Arquitectura e durante um período que se prolongou por dois anos, tive o privilégio de trabalhar no escritório de Copacabana. O contacto com esse mundo acentuou a minha admiração por Niemeyer e fez crescer em mim uma grande estima pela sua família, que era, em parte, o seu grupo de trabalho.
Desde o primeiro momento, o arquitecto brasileiro mostrou uma cordialidade e um interesse por Portugal que conduziram a inúmeras conversas.
Niemeyer disse que o fato de ter se interessado pela vida e por uma sociedade mais justa, além da arquitetura, é o que ainda lhe dá um pouco de tranquilidade. Ele acredita que o mundo vai ser mudado pelos pobres.1
O interior do escritório onde estagiei está repleto de imagens e símbolos que podem revelar algumas das histórias e posições políticas de Niemeyer.
Os desenhos impressos nas paredes do escritório – um que representa um homem sozinho sentado no topo de uma montanha, outro que re-presenta as mulheres e o mar, e ainda outro com o projecto da mesquita para Algéria – retratam momentos de reflexão. As fotografias de amigos, como por exemplo de Carlos Prestes2, que foram personalidades activas politicamente, relembram os anos de opressão do Brasil (no período de ditadura militar, 1964-1985). Uma série de cadeiras amarelas, voltadas para um quadro branco, organizadas pelo arquitecto para sessões semanais, reflectem a preocupação constante pelo conhecimento e pela consciência da imensidão do Universo comparada com a pequenez do ser humano.
No escritório, percebi que o arquitecto está atento, a cada dia que passa, aos diversos assuntos da actualidade e está preocupado com o interesse dos mais novos pelo conhecimento.
Para fortalecer este incentivo ao conhecimento, Niemeyer lançou em 2008 a Revista Nosso Caminho, continuando o trabalho da revista Módulo criada em 1955, uma publicação de promoção da cultura e do debate político, que foi cancelada na época.3 O arquitecto de 102 anos mostra persistência nesse projecto, convicto da sua importância. Lembre-se, como exemplo, o singular episódio de Brasília, em que o arquitecto, ao ser transferido para a região da capital, que na altura era uma área deserta, preferiu levar amigos que se encontravam em situações precárias. Este episódio reflecte como dá valor a outros temas além da arquitectura, num leque alargado de vivências e saberes.
Durante as suas intervenções em Belo Horizonte,4 Niemeyer conheceu Juscelino Kubitschek, personalidade que no futuro próximo viria a apoiar o arquitecto noutros projectos. Quando Le Corbusieré convidado por Lúcio Costa em 1936 para uma série de conferências no Brasil, Niemeyer contacta com ele. Juntos participam no grupo de arquitectos convocados para executar o projecto da Sede da ONU nos Estados Unidos.
Em Brasília, o arquitecto projecta as obras de arquitectura que, em conjunto com o Plano Piloto de Lúcio Costa, do qual resultou o Prémio Lenine da Paz, representam a maior intervenção modernista construída de origem em todo o mundo. Niemeyer ao falar sobre a Praça dos Três Poderes explica: “Não se trata, é claro, de copiar a arquitetura nacionalista na melancólica interpretação, nem transcrever a velha arquitetura colonial, mas fazê-la com a mesma liberdade plástica, com o mesmo amor pela curva, que esta última nos ensina, e que suas construções barrocas exercem.”5
Durante a ditadura militar, Niemeyer instala-se em Paris e realiza obras das quais são exemplo a Sede da Editora Mondadori (Itália, 1968) e a Sede do Partido Comunista (França, 1966). Estes edifícios fazem parte de um espólio de intervenções arquitectónicas de Oscar Niemeyer destacado com prémios de reconhecido mérito, entre os quais, o Prémio Pritzker (1988), o Prémio Príncipe das Astúrias (1989), o Prémio Leão de Ouro da IV Bienal de Veneza (1996), o Royal Gold Medal (1998) e o Prémio Imperial do Japão (2004), e também com o título de Comendador da Ordem Nacional da Legião da Honra (2007) pelo governo francês.
A sua participação política e a sua luta por uma sociedade mais justa foram sempre vinculadas à sua integração no Partido Comunista Brasileiro. Niemeyer é um militante activo. Muitas das suas manifestações são realizadas através de esculturas, as quais normalmente geram polémica. Como exemplo, a escultura em homenagem a três operários assassinados, Tortura nunca mais, em que uma lança golpeia um homem, teve de ser construída duas vezes porque foi totalmente danificada no dia da sua inauguração. Niemeyer foi corajoso e lutou pelos seus ideais concretizados na peça, demonstrando uma atitude autónoma e resistente. Devido à dedicação política e à cumplicidade com as pessoas do Partido, o arquitecto manteve acesas as amizades mesmo após a censura política no Brasil e refere: “Os meus melhores amigos vieram do Partido, interessados e preocupados com um mundo melhor.”6 Hoje, ultrapassando os 100 anos de idade, o arquitecto mantém uma jovialidade rara que o permite adaptar-se a situações novas.
Eu sou um revoltado, revoltado contra a injustiça, revoltado contra a miséria. Acredito num mundo melhor, num mundo realista, a gente sabendo o pouco que representa, mas poder viver de mãos dadas como gente correcta e digna.7
Estas frases, que o arquitecto tanto repete, não são apenas ecos de um idealismo. Niemeyer ofereceu o desenho da casa do próprio moto-rista e, certa vez, trouxe um menino pedinte para o escritório. Niemeyer é sensível ao ponto de agir impulsivamente, suportando futuras críticas. Por outro lado, o optimismo que aquela citação pode transmitir não corresponde a um Niemeyer que diz ser pessimista e que se entristece devido à efemeridade da vida.
Outro aspecto que me surpreendeu foi o facto de perceber que não só se preocupa com a situação social e política, como também em estar a par das novas tecnologias. A sua independência ganha assim mais força.
Sobre este assunto, Sylvio Podestá escreve, após o debate de um projecto que gerou polémica no Brasil, a Praça da Soberania:
O mesmo se pode dizer de sua omnipresença; sem viajar de avião, o senhor está por todo o Brasil: nas inúmeras obras, nas eventuais e longas viagens de carro, e até na moderníssima via tecnológica da vídeo--conferência – como foi o caso do título honoris causa, recebido virtualmente pelo senhor, da Universidade da Paraíba, uns dois anos atrás.8
Nos últimos anos Niemeyer tem realizado diversos projectos que se destacam pelo impacto que têm na opinião pública brasileira. [Um deles é o] já referido projecto da Praça da Soberania em Brasília: uma praça com o Monumento da Presidência e o Monumento a Brasília no eixo do Teatro Nacional e Museu da República, uma torre inclinada com um estacionamento e áreas de lazer. O Instituto do Património Histórico e Artístico Nacional (IPHAN)9 impede qualquer alteração ao Plano Piloto.
A situação gerou polémica nos jornais, na televisão, na rádio, em redes sociais, em blogues, enfim, em todos os canais onde a opinião pública se divulga. O arquitecto reage: “Eu me sinto muito apoiado pelos meus amigos, de modo que vou continuar. Estou numa trincheira e não abro mão. Sou um arquiteto com um trabalho feito.”10
Niemeyer defendeu o projecto através de adaptações projectuais e justificações escritas; sem sucesso, apresentou uma carta a suspender a intervenção. Assim, o arquitecto participa automaticamente numa problemática contemporânea como é a do direito à opinião pública, no caso, no campo da arquitectura e urbanismo.
A arquitetura me ocupou demais, levando-me, como agora faço, a defender meus trabalhos, meus pontos de vista de arquiteto. A debater os problemas arquiteturais com um calor que a vida tão frágil e insignificante não justifica. [...] O meu trabalho não tem nada de especial, sou um arquiteto como os outros. Sou corajoso, procuro fazer coisas diferentes. Especulo o concreto armado, que tudo permite, procuro reduzir os apoios e a arquitetura se faz mais audaciosa e os espaços, mais generosos.11
Fiel às suas convicções, Niemeyer debate o projecto com a mesma segurança com que sempre se defendeu. Danilo Matoso Macedo, sociólogo brasileiro, comenta a situação e conclui que:
Em todo caso, é através da prática saudável do debate público, como o que teve início na Praça da Soberania – e não das negociatas a portas fechadas – que se pavimenta o caminho necessário para a construção de um campo arquitetônico mais republicano e de arquitetos mais envolvidos com sua própria cidadania que com questões endógenas. Esperamos todos que este tenha sido apenas o início de uma série de discussões que podem passar a ter lugar a cada grande obra pública. Os meios de comunicação estão abertos para isso e a população está desejosa de discutir a construção de suas cidades. Resta saber da disposição dos arquitetos para o debate.12
No escritório de Copacabana, Niemeyer organiza os seus dias e a sua metodologia de trabalho de um modo particular. As visitas agendadas por jornalistas, estudantes ou clientes são concentradas na parte da manhã de maneira a deixar reservada a tarde para o seu trabalho. Os colaboradores durante a manhã trocam ideias de projecto e de tarde o trabalho é desenvolvido noutros espaços para que Niemeyer trabalhe sozinho.
No projecto Memorial Encontro das Águas – um complexo constituído por um miradouro, um restaurante e um museu – o elemento maqueta foi o mais utilizado para alcançar a solução. O mirante ficaria num local estratégico onde se podem visualizar ao mesmo tempo os dois rios que se encontram, um com água de cor verde e outro de cor azul. Um dia, ao chegar ao escritório, Caique13 já tinha elaborado cerca de cinco maquetas diferentes para esta volumetria. O objecto de estudo específico do edifício era uma lateral cuja curvatura deveria seguir a curva da marginal do rio. A dificuldade era alcançar o volume que acompanhasse sempre a marginal onde quer que estivesse o observador a mirar o edifício, como se de uma escultura se tratasse.
Em termos metodológicos, Niemeyer prefere valorizar o desenho à mão e a elaboração de maquetas de trabalho para chegar à ideia de projecto, por isso o uso de computadores com esse fim não é aceite no escritório. Deste modo o arquitecto desvia-se do modo contemporâneo do fazer arquitectura onde o uso de computador é predominante como elemento de trabalho.
Durante o desenvolvimento de um Estudo Preliminar de uma habitação unifamiliar para a marginal da lagoa de Brasília, por exemplo, ocorreu um episódio curioso. Perante um esquisso desenhado pelo arquitecto, cujos gestos à partida parecem simples, tínhamos de realizar uma representação rigorosa em Autocad para um cliente. Uma curva da cobertura em planta que desenhava a forma sinuosa da fachada do edifício estava mais que definida no pensamento de Niemeyer. Quando apresentámos o desenho, o mesmo foi reprovado cerca de dez vezes até chegar à curva certa. Nunca imaginei que fosse tão moroso chegar à representação correcta de uma curva desenhada à mão. Este facto comprova que Niemeyer é seguro e convicto da sua arquitectura.
Como Niemeyer não tem capacidade física para estar permanentemente a sair do escritório, o caso do Teatro Municipal de Niterói foi uma das poucas vezes em que assisti ao arquitecto num acompanhamento de obra.
Chegados ao local, Niemeyer quis ir ver a colocação do mural em azulejos amarelos com grafismos seus. Ao chegar perto do painel e satisfeito com o que viu disse ao colocador: “Sabe, não leve a mal não, você fez um excelente trabalho, mas só eu sou responsável pela qualidade da execução do serviço e por isso quis estar presente.” O modo cordial com que abordou o trabalhador elogiando a sua prestação, antes de conversar com qualquer responsável pela obra, mostra como Niemeyer é empe-nhado no seu trabalho e grato aos diversos colaboradores envolvidos na sua arquitectura.
Actualmente, três projectos foram destacados pelos meios de comunicação social brasileiros, por apresentaram inovações na arquitectura e nos seus métodos construtivos. Em primeiro lugar, Niemeyer trouxe novos pontos de vista para arquitectura perante as actualizações de cidades históricas, como aconteceu em Ravello, Itália. Foi inaugurado o Auditório Oscar Niemeyer ao fim de oito anos de luta: “A construção do prédio enfrentou muitas resistências e foi motivo de luta política regional. Os moradores mais conservadores da região eram contra a construção de uma obra de formas modernas e arrojadas em uma cidade medieval, considerada patrimônio mundial.”14
O segundo projecto, o Centro Administrativo de Minas Gerais inaugurado em Março deste ano apresenta um vão livre flutuante em betão pré-esforçado publicitado como o maior do mundo. Esta construção desafiou os engenheiros: “E como o concreto ficaria aparente, qualquer erro resultaria em demolição. A saída foi fazer um protótipo de madeira, em escala reduzida, para ir montando e ver a execução em escala real. (…) As formas eram mudadas metro a metro.”15
Finalmente, o Centro Cultural Internacional Oscar Niemeyer do Principado das Astúrias, inaugurado no segundo semestre de 2010 e do qual resultou uma exposição retrospectiva, em Avilés. Esta obra, que é a única do arquitecto em Espanha, destacou-se por integrar o projecto de transformação urbana que o governo local considera o mais importante da cidade e por ter sido um trabalho oferecido por Niemeyer à Fundação Príncipe das Astúrias num gesto de agradecimento pelo prémio que o arquitecto recebeu.
Na política, Niemeyer mantém-se crítico e inconformista continuando a demonstrar a sua opinião livremente. Atento às situações actuais, critica o modelo económico capitalista e insiste na luta dos homens por um mundo melhor.
Niemeyer continua a produzir críticas políticas através da escultura. Em 2005, realizou-se uma exposição sua no Museu de Arte Contemporânea em Niterói. Nessa mostra, o arquitecto fez questão de que a peça Monstro Capitalista fosse também ampliada numa impressão para uma das paredes. Com isso pretendeu sublinhar o “problema actual que consome o mundo”, como referiu ao explicar a todos quando entrámos no Museu e vimos a impressão instalada.
Estas intervenções mostram como Niemeyer está à frente do seu tempo ao observar as situações de um ponto de vista diferenciado. A sua curiosidade nasce de uma sensibilidade relativamente à grandeza do Universo e à efemeridade da vida. As aulas de filosofia e cosmologia que até hoje são leccionadas no escritório, mostram o seu empenho em perceber “o verdadeiro lugar do ser humano no mundo”,como o próprio refere. Niemeyer organizou um documentário a que deu o título A vida é um sopro (2006) onde transmite a ideia da efemeridade da vida.
Eu sou pessoalmente pessimista. Eu estou na linha dos velhos pessimistas. Eu acho que a vida é um minuto. O ser humano completamente desprezado, nasce e morre. Então o sujeito tem que olhar p’ro céu e sentir que é pequenino, que tem que ser modesto, que nada é importante. A vida é um sopro, um minuto. Então não há razão p’ra esse ódio todo.16
Destas ilações Niemeyer conclui que o importante é a vida, os amigos e a família, desconsiderando o reconhecimento dele próprio e da sua arquitectura. O arquitecto relativiza essa importância por ter consciência da pequenez do ser humano perante a dimensão do Universo. Esta distância do mundo físico e perene torna-o um ser independente, e os seus 102 anos nada representam comparado com o tempo do Universo. Niemeyer desenvolve uma sensibilidade maior sobre as questões da vida, Arte e Arquitectura. Como diz Baudelaire, a sensibilidade faz o génio, e é neste sentido que é considerado genial.
Conhecer de perto Niemeyer e ouvir directamente tais conselhos no primeiro contacto com a minha profissão, permitiu-me perspectivar criticamente o papel do arquitecto e do ser humano de um modo totalmente novo. Um olhar único que deve ser protegido e ao mesmo tempo assimilado durante um percurso de vida. Num gesto de agradecimento a Oscar Niemeyer e à família/equipa, despeço-me com uma frase sucinta e esperançosa: “Teremos um Niemeyer eterno, na sua obra e nas suas ideias nobres” (Fidel Castro).|
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1 Lucia Froés. Praça Niemeyer em Havana. Radio France Internacional. (30 Jan. 2008). Reportagem.
2 Luís Carlos Prestes (1898-1990) foi secretário-geral do Partido Comunista Brasileiro. (N.E.)
3 A revista Módulo de cultura arquitectónica existiu até 1965, quando foi proibida pela ditadura militar. (N.E.)
4 O conjunto da Pampulha (1940-1943), em Belo Horizonte, integrava inicialmente cinco projectos: o Casino (actual Museu de Arte), a Casa de Baile, o clube naval, a Igreja de São Francisco de Assis e um hotel. Apenas este último não chegaria a ser realizado. (N.E.)
5 Texto justificativo de Oscar Niemeyer sobre a Praça dos Três Poderes de Brasília na década de 80.
6 Sylvio Emrich de Podestá. Vitruvius: carta aberta ao arquiteto Oscar Niemeyer. Cometa Itabirano. Nº 280 (Set. 2003). Reportagem.
7 Docs d’architecture – Oscar Niemeyer, produção de Le Sept Arte, Panic Productions, Wajnbrosse Productions e RTBF Television (Bélgica), em associação com Polo de Imagem, Discovery Networks (América Latina), NOS (Países Baixos) e SBS Television (Austrália) e apoio do Programa Media.
8 Op. cit. Docs d’architecture – Oscar Niemeyer.
9 Instituição ligada ao governo brasileiro, em parte equivalente ao nosso IGESPAR – Instituto de Gestão do Património Arquitectónico e Arqueológico. (N.E.)
10 Ibid.
11 Fabiano Maciel e Sacha (dir.) Oscar Niemeyer: a vida é um sopro. [S. l.] : Santa Clara Comunicações; Pipa Produções, 2006. Filme.
12 Op. cit. Danilo Matoso Macedo.
13 Carlos Niemeyer Medeiros, bisneto de Oscar Niemeyer.
14 Adriana Niemeyer. Polêmica obra de Oscar Niemeyer é inaugurada na Itália. Radio France Internacional. (30 Jan. 2010). Reportagem.
15 Ana Paula Rocha. Caixa suspensa. Téchne (4 Mar. 2009). Reportagem.
16 Fabiano Maciel e Sacha (dir.) Oscar Niemeyer: a vida é um sopro. [S. l.] : Santa Clara Comunicações; Pipa Produções, 2006. Filme.