Onoffice é um escritório de arquitectura sedeado no Porto e constituído por quatro arquitectos de várias nacionalidades: os portugueses Ricardo Guedes (n. 1978) e João Vieira Costa (n. 1979), o italiano Francesco Moncada (n. 1976) e o norte-americano-nipónico Leon Rost (n. 1983).
A aparente inusitada mistura, ficou a dever-se aos vários cruzamentos internacionais que os sistemas de ensino (e o mercado de trabalho) da União Europeia hoje permitem e fomentam.
Se a cumplicidade profissional entre João Vieira Costa e Ricardo Guedes (ambos arquitectos pela Universidade Lusíada do Porto, em 2004 e 2005, respectivamente) é mais fácil de seguir, já que se encontraram ainda estudantes noAtelier dos Poveiros, estrutura informal onde procuravam, sobretudo, convívio, discussão e pensamento sobre temas de arquitectura que não sentiam ocorrer na Universidade, já os percursos posteriores e a cadeia de relações que irão trazer Moncada e Rost para o Porto são mais fortuitos e complexos de destrinçar.
O elo de ligação entre todos é Vieira Costa que trabalhou na Dinamarca (PLOT – onde conheceu Rost, pela primeira vez –, JDS e BIG), na Holanda (NL Architects, MVRDV e OMA – onde conheceu Moncada) e Noruega (no atelier CODE e depois, na AHO, Faculdade de Arquitectura e Design de Oslo, onde deu aulas). Guedes fez o Erasmus em Cottbus na Alemanha. Rost, que se licenciou em 2006 no Cal Poly, em San Luís Obispo, partiu, depois da sua passagem pelos PLOT, na Dinamarca, para o Japão onde trabalhou com Shigeru Ban. Moncada, que fez o curso em Palermo (2004) trabalhou em Barcelona, em Londres (com os FOA), em Amesterdão (com os OMA), no Dubai e em Oslo.
É um retrato de um percurso cosmopolita, este, que começa a ser uma característica comum aos arquitectos europeus formados neste século. Em Portugal, entre Erasmus, Freemovers e estágios da Ordem dos Arquitectos ou académicos, entre a procura de um primeiro trabalho ou o desejo de alguma aventura e viagem, os curricula iniciais de muitos jovens arquitectos estão hoje repletos de oportunidades aparentemente interessantes, redes, contactos, conhecimentos, sugestões, revelando uma certa mudança de paradigma em relação à ideia do exercício clássico da profissão.
Esta formação com o seu quê de eclético será, provavelmente, no caso da jovem equipa do Onoffice, responsável pelo modo bastante livre como encaram a abordagem aos projectos em que se vêem envolvidos.
As maquetas dos vários trabalhos e concursos em que têm vindo a apostar sucedem-se garantindo-nos um inegável prazer visual, pela enorme variedade e concentração de perspectivas, de vontades, de interpretações, de desejos, de modos, de aproximações. Não parece haver dois projectos iguais. Há sítios diferentes, em países diferentes, com programas diferentes que lhes exigem respostas diferentes. Mas não é a “diferença a todo o custo”, para “dar nas vistas” ou para marcação publicitária do território. A conversa é sempre fluida e inteligente quando lhes interrogamos os porquês de determinadas formas, texturas, propostas de espaço, urbano ou arquitectónico.
Não conheci Francesco Moncada que estava, à data da minha visita, no Brasil, em trabalho. Leon Rost pareceu-me tímido e pouco conversámos. Ricardo Guedes faz uso de uma discreta inteligência que parece reservar-se apenas para as frases certas na altura certa; tem a ponderação que esperamos do arquitecto. João Vieira Costa é sem dúvida o mais expansivo, o que tem menos medo de errar, o que mais arrisca num à-vontade generoso, aquele que se percebe ser o “agregador” e o impulsionador do grupo.
Vi com eles uma série de projectos para Portugal, vários pontos da Europa e para o Brasil: em sociedade com outros arquitectos, alguns; em resposta a encomendas privadas, outros; sobretudo, muitos concursos (uns “perdidos”, outros à espera do resultado, dos quais, por isso, não falarei). Projectos todos eles relevantes e a terem merecido a pena, quer pelos resultados apresentados quer pelas ideias e debate que terão gerado no interior do próprio escritório.
Gostaria de relevar três deles: a proposta para a Istambul, Capital Europeia da Cultura 2010, a Casa Wallpaper para o Porto e a proposta Turbine City para Stavanger, na Noruega.
O traço de união entre estes trabalhos está sobretudo no modo da sua angariação, naquilo a que se poderá chamar capacidade de iniciativa, e que será um traço distintivo dos Onoffice. E é uma espécie de advertência para os tempos concorridos de hoje: quem pretenda dedicar-se à arquitectura não pode ficar apenas em casa, parado, à espera do telefone. A capacidade propositiva é aqui não só glosada no âmbito mesmo dos projectos, mas, a montante, também, na sua angariação, procurando formas novas de lhes aceder, aproveitando brechas, pequenos intervalos não preenchidos, momentos menos explorados.
O trabalho para Istambul, por exemplo: parte da leitura de um anúncio na Internet, de um call for papers da organização turca para a Capital Europeia 2010 que pedia “ideias” para eventualmente vir a desenvolver no âmbito da efeméride. Reconhecendo Istambul como uma cidade magnífica mas um pouco “esgotada” pelos programas do turismo massificado, os Onoffice avançaram com um ambicioso (e, ao mesmo tempo económico – o pragmatismo é uma das qualidades que cultivam) projecto para pôr os visitantes a ver Istambul de um modo diferente e novo, longe da vulgata que as agências de viagem propõem e valorizam. Uma rede de gruas de obra, como modernos minaretes, seria instalada atravessando pontos-chave da cidade, servindo de suporte a um expedito teleférico. Os visitantes utilizariam este tipo de transporte entre mesquitas, por exemplo, e, de caminho, veriam as maravilhosas coberturas abobadadas que constituem o skyline de Istambul, mas a que as estreitas ruas negam uma leitura clara. A qualidade e a originalidade do que propunham levaram-nos a Istambul por mais que uma vez, para discussões com o Comité: a princípio perplexo, depois entusiasmado, finalmente timorato ao ponto de ter deixado cair a ideia. Mas a proposta continha em si muito da essência do que também pode construir a arquitectura hoje: ideias simples mas inovadoras, capazes de transformar o modo de ver e usar estruturas existentes, estruturas de sempre, estruturas de tal modo complexas que admitem outros modos de ser apropriadas pelo homem.
O segundo projecto trata-se da resposta à revista Wallpaper que convidou jovens arquitectos de vários continentes a apresentar uma proposta para uma “casa urbana contemporânea”.
Poderiam ter feito um exercício “abstracto”, já que nada era referido quanto a condições mais ou menos realistas que pudessem rodear a intervenção. No entanto, pareceu-lhes que tudo poderia redundar apenas num exercício estéril, ainda que elegante e aggiornado ao formato do lifestyle design da conhecida revista.
Procuraram, então, um pouco de “combustível” que pudesse ser a base da sua invenção: uma casa à venda no centro do Porto, entre a Cedofeita e a Boavista, chamou-lhes a atenção. Procuraram o proprietário e tentaram envolvê-lo. A casa estava à venda havia algum tempo e nada acontecera; não seria mais interessante apostar num projecto de recuperação e adaptação da velha tipologia a padrões actuais, projecto que pudesse vir a ser licenciado pela Câmara do Porto e, em seguida, colocá-la à venda, com esse passo burocrático já dado e com um destino visível frente aos potenciais interessados? O proprietário concordou e adjudicou-lhes um projecto de renovação e ampliação da casa; o estudo prévio foi então tornado mais gráfico e enviado para a Wallpaper, já enraizado numa presente contemporaneidade não fantasista, com a invenção credibilizada pelas condições verdadeiras que um lugar no Porto, uma casa existente e um conjunto de normas e regulamentos também reais tinham ajudado a moldar e a encontrar o rumo.
Pode, depois, a decoração ser mais ou menos do agrado da Wallpaper, pode a casa ter grafismos nas paredes ou nas portas, cores conformes à paleta da moda, que o exercício principal, as dimensões, a força da luz, o estar urbano do prédio, o desenho das janelas e a sua frequência, tudo ficou mais agarrado a decisões de bom senso, informadas pela história e com uma capacidade de aderência à cidade real bem mais firme e exaustiva que um simples exercício de design sem objectivo que não o de decorar páginas de revistas mundanas.
O terceiro projecto é mais complexo que os anteriores e mais ambicioso, na rede de produção e autopromoção que exigiu.
Partindo do seu conhecimento do ambiente cultural da Noruega, os arquitectos do Onoffice prepararam uma operação extraordinariamente inventiva que, mesmo que não venha a conhecer a luz do dia, ficará sempre para a história com o valor icónico das grandes visões utópicas modernas como o Plan Voisin de Le Corbusier, Broadacre City de Frank Lloyd Wright ou os arranha-céus futuristas de Sant’Ellia.
A Noruega é o grande produtor de petróleo da Europa Ocidental, como é sabido; a sua preocupação com as energias alternativas tem sido, por isso, relativamente diminuta. É um país com pouca produção de energia eólica, por exemplo e, em simultâneo, tem uma opinião pública extremamente reactiva à ideia das torres de vento espalhadas ao longo das suas paisagens de fiordes, ilhas e montanhas geladas. Ao mesmo tempo – constataram os Onoffice – as correntes propícias à instalação de pás eólicas não chegam francamente à costa da Noruega, antes atingindo o seu ponto mais expressivo ao largo, no Mar do Norte, já dentro de águas territoriais norueguesas.
Assim, apostando em enormes turbinas de terceira geração, presentemente em fase de estudo, mas que se prevê comecem brevemente a vulgarizar-se, propuseram ao governo norueguês uma “quinta” com 49 megatorres, a instalar ao largo de Stavanger na zona mais favorável aos ventos e onde ninguém (que não queira) as possa ver. Uma grande doca hexagonal aquieta as águas pontuada por duas torres maiores, recebendo os barcos (de recreio, de patrulha marítima, de manutenção, de pesca ou paquetes de cruzeiros) que ali entendam aportar.
O tamanho das torres centrais é tal que lhes propõem a instalação de um hotel e de um museu na base: fica assim também justificada a viagem que a curiosidade possa motivar. As grandes turbinas seriam, então, e ao mesmo tempo, hotel, museu, porto, atracção turística, ícone de uma época, pequena (grande) presença humana no Atlântico Norte, como um farol moderno vocacionado para a recuperação da energia do vento.
Não sem uma ponta de ironia, nas maquetas preparatórias, fizeram coincidir uma dessas megatorres à estrutura de uma Torre Eiffel; como que dizendo que, agora, agarrada a uma utilidade do nosso tempo, a velha torre que, na sua época, antes de se transformar em símbolo de uma era, alertou o mundo para as virtudes da industrialização e da programação rigorosa da construção, estava ali, de novo, moderna e futurante, a ajudar à divulgação da energia limpa de que o mundo precisa.
O governo da Noruega ficou a pensar. Muitos debates públicos se seguirão. Os Onoffice puseram Oslo a discutir apaixonadamente. São arquitectos pró-activos e dinâmicos. Gosto de imaginar os resultados destas acções concertadas; creio que o futuro possa passar por coisas destas, com a qualidade destas.|