PT/EN

Passado

O Chile é um país que deveria estar preparado para suportar desastres naturais, mas não. O maior terramoto registado na história da humanidade, seguido de maremoto, ocorreu nas proximidades de Valdivia, a 22 de Maio de 1960, há apenas 50 anos. 

Em 71 anos, ou seja em menos de um século, a força da natureza fez-se sentir em diferentes cidades e localidades rurais ao longo do Chile: o terramoto de Chillán, a 27 de Fevereiro de 1939; Valdivia, a 22 de Maio de 1960; Santiago, a 3 de Março de 1985; Punitaqui, a 14 de Outubro de 1997; Tarapacá, a 13 de Junho de 2005; Tocopilla, a 14 de Novembro de 2007; Cobquecura,  a 27 de Fevereiro de 2010; a erupção do vulcão em Chaitén, a 2 de Maio de 2008. 

Parece que somos um país de memória muito frágil e que fomos incapazes de aprender com todas estas experiências. É evidente que a nossa condição geográfica determina a nossa existência, o nosso passado, presente e futuro. Ante tal quantidade de calamidades é óbvio que, em relação a desastres naturais, deveríamos ser um país em alerta constante, sempre pronto a reagir e a responder de maneira oportuna e efectiva, mas cada vez que a natureza solta a sua fúria, dá a impressão que  temos de partir do zero. É algo, realmente, difícil de entender.

Todavia, aprendeu-se alguma coisa pelo caminho como consequência dos grandes desastres naturais. Por exemplo, o Chile possui uma legislação anti-sísmica para as construções que evitou que o número de vítimas mortais fosse maior, pelo menos nos locais onde os edifícios foram construídos de acordo com esta legislação e onde a fiscalização agiu de maneira rigorosa. 

Mas o ponto-chave aqui é que o terramoto, ou outra manifestação da natureza, não se reduz apenas ao tempo que dura o fenómeno natural, mas é também tudo o que vem depois. Porque há sempre um “antes” e um “depois” de cada desastre natural, um “antes” que poderia ser herança, aprendizagem e preparação, mas que nas condições reais não aconteceu e produziu um “depois” indesejado, o verdadeiro desastre que permaneceu. 

 

Presente 

O último terramoto-maremoto, ocorrido dia 27 de Fevereiro de 2010 às 3h34, estendeu-se por um raio de acção entre 300 e 500 quilómetros, desde o epicentro situado no mar, frente à localidade rural de Curanipe. Quinze a 20 minutos após o terramoto, um maremoto afectou a zona costeira, destruindo tudo por onde passou. As consequências foram devastadoras, com perdas humanas (a maioria por causa do maremoto) e materiais. Resultado: 521 vítimas mortais, 56 desaparecidos, 800 mil feridos, sem mencionar a quantidade de efeitos colaterais, muito difíceis de quantificar nesta estatística. 

No respeitante aos danos materiais provocados pelo terramoto-maremoto, o último levantamento assinala 200 mil casas destruídas ou gravemente danificadas, 76 hospitais, 56 consultórios médicos e quatro mil escolas e recintos educativos danificados e 200 pontes destruídas ou danificadas. O terramoto deu-se às 3h34 horas, quando a maioria da população dormia, o que permite pensar que as consequências teriam sido muito piores se o terramoto se tivesse feito sentir durante o dia (sobretudo se fosse de trabalho). 

Em Santiago, a cidade mais povoada do país, a intensidade do terramoto foi de 7,9 na escala de Richter e os danos foram consideravelmente menores que em muitas partes próximas do epicentro, detectando-se alguns pontos na cidade mais afectados. A normalidade no funcionamento geral da cidade chegou em escassos dias, tornando imperceptível para a maioria da população o sofrimento de algumas famílias que se viram realmente afectadas. Por um lado, isto revela que o padrão construtivo é de tal qualidade que resiste a um embate como o verificado, mas por outro, mostra bem as diferenças e a segregação que a cidade comporta. 

O grande terramoto foi totalmente fulminante, o quinto mais forte registado no mundo e o mais devastador no Chile desde o terramoto de 1960 em Valdivia. O que parece lamentável é que muitas das mortes não foram, realmente, devidas ao terramoto-maremoto, mas sim a uma falha humana, por parte dos responsáveis pelo alerta de maremoto. 

Este desastre foi não só um grande movimento que sacudiu e destruiu tudo o que pôde, mas também uma verdadeira fotografia em tempo real que nos delatou como um país com sérias falências estruturais: 

• É difícil crer que um país como o Chile não conte com um eficiente sistema de comunicação de alerta de maremoto, pois este fenómeno pode dar-se a qualquer momento – dado empírico – ou em qualquer lugar, já que um dos nossos limites territoriais é o oceano Pacífico, cujo fundo é a placa tectónica de Nazca;

• Problemas de comunicação e de coordenação durante e após o terramoto: a maioria das vítimas mortais e desaparecidos foram consequência do maremoto, por falta de alerta; 

• A destruição de estradas e pontes – por serem mal construídas; algo fundamental para o desenvolvimento de um país como este;

• A falta de um plano de acção para um estado de emergência;

• A destruição do património arquitectónico, constituído na sua maioria por edifícios de adobe construídos sem qualquer técnica anti-sísmica;

• A destruição e danos em construções novas, o que evidencia a falta de fiscalização;

• Os saques e o descontrolo social perante a falta de uma autoridade nas zonas devastadas;

• A incomunicabilidade das zonas afectadas;

• A falta de água e luz, uma vez que os sistemas dependem na sua maioria de empresas privadas e esta situação excedeu a sua capacidade de resposta;

• A falta de um plano de distribuição imediata de alimentos.  

Tudo isto acontece quando o país aparentemente se encontrava num dos seus melhores momentos. De repente, parece que continuamos o mesmo país de há 50 anos. 

 

 

Terramoto político 

Para poder entender o processo posterior ao terramoto é necessário contextualizar o momento político em que ocorreu. 

De forma coincidente, nesse momento o Chile vivia, e ainda vive, mudanças importantes em matéria política. Duas semanas após o terramoto, a direita chegou ao poder passados 52 anos de ausência. O governo da Concertação – formação política que concentrava os partidos opositores à ditadura de Pinochet – chegou ao poder no ano de 1991. Isto sucedeu após uma série de acordos ocultos com a ditadura de Pinochet, que permitiram que esta mudança se transformasse em algo semelhante a uma eterna transição da ditadura para a democracia.  

Durante esse período manteve-se um modelo económico neoliberal; registaram-se avanços na protecção social, mas manteve-se o grande fosso entre ricos e pobres, vista como a grande dívida deixada pelo governo da Concertação e que terminou por desencantar um grupo de chilenos, que finalmente os derrotaram. Se por um lado o governo da Concertação foi incapaz de escutar as críticas à sua gestão, o que os impediu de crescer, por outro, as lutas internas de poder, somadas aos casos de corrupção, terminaram por desmantelá-los interiormente. Curiosamente, o governo da Concertação (1991-2010) durou quase tanto como o regime militar de Augusto Pinochet (1973-1990). 

A direita, representada pelo actual Presidente Sebastián Piñera, assumiu o poder dez dias após o terramoto. Um governo cuja força parece assentar: primeiro na excelência profissional, independente de favorecimentos políticos; segundo, na ênfase dada à temática social; e, terceiro, numa grande confiança em que as promessas feitas se cumprirão e, sobretudo, numa grande aposta no futuro. 

 

Futuro

Perante este cenário de um país devastado e em mudança política, o que surge em primeiro lugar são perguntas. 

Que posso fazer enquanto arquitecto? Terei as ferramentas necessárias e a experiência acumulada suficiente para poder dar algum contributo? Quem é o encarregado de coordenar o plano de reconstrução? Como responder a uma situação de emergência com qualidade e tendo em vista o longo prazo, quando se justapõem os tempos daqueles que perderam tudo, o tempo de resposta dos projectos e o tempo de um governo que deve demonstrar capacidade de resposta sem perder a qualidade? É possível? É legítimo que o governo instrumentalize o terramoto para poder alcançar os seus objectivos? Quem pode garantir a qualidade das soluções para a reconstrução? Quem é ou quais são realmente as pessoas que têm conhecimento ou experiência para enfrentar um problema desta magnitude? Quem tem realmente que assumir uma tarefa desta envergadura? Os privados – como construtoras e associações de arquitectos – os cidadãos, o governo, ou uma aliança entre estes grupos? Serão aqueles que perderam tudo, os habitantes das cidades destruídas, os que devem decidir quem deve e como se deve reconstruir um lugar? Ou devem ser as autoridades e os especialistas a tomar essa decisão? Quanto tempo é necessário esperar para oferecer uma solução de qualidade? O que é isso a que chamamos qualidade, quando o que se necessita é do básico e com urgência? De que forma podem as 52 escolas de arquitectura do país contribuir para a reconstrução? Será uma oportunidade para repensar o papel da universidade no que toca à investigação, à acção e ao contributo para a comunidade? Que responsabilidade tem a universidade nas problemáticas da habitação, na preparação para os desastres e nas respostas ao futuro? Têm as 52 escolas de arquitectura alguma maneira de responder a estas problemáticas?

Talvez uma das poucas certezas seja a de estarmos perante uma oportunidade única para poder propor, discutir e fazer. 

 

Acção

É indiscutível que enquanto arquitectos somo avaliados em momentos como estes, em primeiro lugar porque muitas construções sofreram danos ou simplesmente ruíram em consequência do terramoto. Mas também o somos quando há que dar uma resposta urgente à necessidade de habitação, escolas, centros de saúde, jardins infantis, etc. Curiosamente a maioria das primeiras respostas não vêm de arquitectos. 

As respostas à situação de emergência foram variadas: tendas para habitação de emergência, atendimento médico móvel de diversos tipos, tendas militares para instalações médicas e as muito conhecidas media aguas. Apesar do desastre ter sido de grande escala, pode questionar-se a capacidade de reacção que demonstrámos como país, pois, não obstante termos repetidas vezes vivido situações similares, não existiam soluções pensadas previamente para fazer frente a um desastre desta magnitude, facto que se constata pela importação de soluções estrangeiras. Considerando o historial e a recorrência dos desastres naturais no nosso país, é lógico pensar que o Chile deveria ser perito e exportador de soluções para situações de emergências, em vez de um país desvalido na sequência de um terramoto. 

A media agua corresponde a uma estrutura base de 3m x 6m, com cobertura de zinco, sem isolamento nem instalações sanitárias ou luz, por vezes sem pavimento e sem controlo de qualidade na construção, construída sem mão de obra qualificada, cujo único fim é proporcionar um tecto de emergência para quem perdeu o seu lar. A media agua transformou-se na solução emblemática de habitação de emergência e o símbolo (e instrumento) do discurso político para enfrentar a catástrofe. Quase três meses após o terramoto, o governo deu por terminada a situação de emergência, declarando haver atingido a meta simbólica de 45 mil media aguas, 20 000 das quais foram construídas por voluntários da organização Un Techo para Chile (ao todo 71 749 pessoas comprometidas com uma causa). 

Semanas depois entregou-se a primeira habitação definitiva, 46 metros quadrados, unidade que resume o discurso que definira a etapa subsequente à situação de emergência, a reconstrução. Com a tónica posta em frases como “qualidade de vida”, enalteceram-se as soluções técnicas que determinam a segurança e a habitabilidade das casas. Deste modo, menciona-se com grande orgulho a incorporação de sistemas de construção anti-sísmicos e o investimento em aspectos como o isolamento térmico. Sem dúvida, parece ser um grande avanço desde a media agua

Mas, regressando à ideia de “oportunidade” que este desastre comporta para propor, discutir e criar habitação (e escolas, cidades, etc.), surge a grande interrogação para a disciplina (a arquitectura): como contribuir com soluções? A tónica posta na expressão “qualidade de vida”, que parece definir a variável técnica das propostas de habitação definitiva apresentadas ultimamente por diferentes meios, parece ser acertada mas, ainda, insuficiente. Ficam esquecidos aspectos de outro tipo que se afastam do objectivo técnico e têm que ver mais com dimensões simbólicas  que contribuem consideravelmente para a qualidade de vida. A qualidade espacial, a qualidade estética, a imagem esperada dos bairros e áreas das cidades a reconstruir (espaço público, imagem de bairro, etc.), aparecem como valores simbólicos que a curto prazo não se afiguram como prioritários, mas que a longo prazo determinam os verdadeiros aspectos que transformarão um bairro ou uma casa em algo marginal e de baixa qualidade. 

Os danos deixados pelo terramoto-maremoto constituem sem dúvida uma realidade complexa, onde se envolvem aspectos de todo tipo (materiais, culturais, socioeconómicos, políticos, técnicos, sociais, etc.). As respostas a elaborar terão que enfrentar o cenário segundo diferentes perspectivas e disciplinas, logo serão respostas complexas. Da mesma forma, a arquitectura não deveria suspender variáveis por força da urgência, mas antes combinar com habilidade os aspectos técnicos (intrinsecamente necessários) com os simbólicos que apenas a si lhe correspondem (não à construção, nem à engenharia, nem à economia), para elaborar com as suas ferramentas uma resposta complexa à altura das solicitações dos afectados. 

 

Público-privado

Para chegar ao poder, parte do discurso do actual governo de direita foi sempre a ideia da aliança entre o mundo privado (empresários e grupos económicos) e o Estado, como uma maneira de tornar mais eficiente o trabalho deste último.  

O terramoto converteu-se numa grande oportunidade para o governo pôr em prática, de forma antecipada, esta teoria. Por um lado, grupos económicos importantes dentro do país, constituídos principalmente por grandes companhias e empresários, tomaram a seu cargo determinadas zonas danificadas onde têm algum vínculo familiar ou as suas empresas têm instalações produtivas. As colaborações vão desde quantias de dinheiro à reconstrução urbana e assessoria. 

Um dos casos emblemáticos deste tipo de aliança é o da reconstrução da cidade de Constitución. O projecto denomina-se Plan de Reconstrucción Sustentable de Constitución (PRES Constitución) e é liderado por  ARUP e  ELEMENTAL (Alejandro Aravena), em associação com a empresa privada ARAUCO e o governo. Esta solução procura canalizar recursos públicos e privados através de um plano profissional de excelência. 

Outro caso similar é o levado a cabo na ilha de Juan Fernández pela Asociación de Oficinas de Arquitectos (AOA), que reúne grande quantidade de profissionais. Estes assumirão a reconstrução da orla costeira da localidade de San Juan Bautista, pelo que assinaram para esse efeito um convénio entre a Câmara Municipal de Lo Barnechea e o governo, chamado Plan de Reconstrucción Estratégico Sustentable (PRES). 

Embora ninguém possa duvidar das boas intenções que há por detrás deste modo de governar, é inevitável pensar em conflitos de interesse.  

O que é que acontece quando um alcalde, sem considerar a opinião das pessoas afectadas, fecha acordo com uma construtora para se encarregar da reconstrução? É válido o argumento da excelência profissional, ou é uma maneira airosa de evitar ser avaliado?

 

O que se passa quando o governo decide, sem qualquer concurso público, entregar às três maiores empresas do país, que distribuem materiais de construção, 14,5 milhões de dólares para se encarregarem da distribuição de materiais?

A procissão ainda vai no adro e cada vez surgem mais perguntas; passaram apenas três meses desde o terramoto e calcula-se que o processo de reconstrução durará pelo menos quatro anos ou talvez mais. 

Ainda não é possível prever os desastres naturais, mas podemos estar preparados para as suas consequências, e a grande dúvida é se desta vez teremos aprendido algo.|

 

tradução de Pedro Sobral Pignatelli

 


VER mundo emergente #234
VER mundo emergente #235
VER mundo emergente 2 #235
VER mundo emergente #236
VER mundo emergente #237
VER mundo emergente #238
VER mundo emergente #240
VER mundo emergente #242
VER mundo emergente 2 #242
 FOLHEAR REVISTA