PT/EN

Entre tantos, o que fazer? 

     Será ainda prematuro estabelecer-se uma análise cuidada e objectiva das consequências da recente entrada exponencial no mercado de trabalho de arquitectos recém-formados. Esta entrada – em grande parte motivada pela crescente democratização do acesso ao ensino superior, ditada pelas profundas transformações sociais e económicas de que o país beneficiou no pós-25 de Abril e pela consequente abertura e proliferação de cursos de arquitectura, públicos e privados, um pouco por todo o território nacional – contribuiu para uma mudança de paradigma na estrutura da profissão. Segundo dados do Relatório à Profissão, promovido pela Ordem dos Arquitectos em 2006, esses cursos contribuíram, no ano em causa, para a formação de 3167 novos arquitectos, dos quais, 43,6 por cento terão sido formados por universidades privadas. Números que atestam, de forma inequívoca, essa profunda transmutação.

     Se parecem inquestionáveis e evidentes algumas das mais-valias da formação de um tão grande número de arquitectos – muitos deles com provas dadas fora de portas, ao abrigo de um dos vários programas de estágio e intercâmbio que a adesão à Comunidade Europeia potenciou durante os últimos 20 anos –, não deixa de ser desanimadora, e digna de reflexão, a precária realidade com que se deparam, quer no acesso ao primeiro emprego quer face à sua consequente consolidação. 

     Por não se tratar de um problema endémico da classe dos arquitectos, o debate necessário sobre estas matérias estagnou na revogação do Decreto-Lei nº 73/73, em claro desfavor de uma maioria que, surpreendentemente, continua silenciosa. 

     Oficialmente formado em 2008, o atelier OTO, sedeado em Lisboa e constituído pelos arquitectos André Santos, Miguel Carvalho, Nuno Martins e Ricardo Vicente, será um dos primeiros produtos deste ainda recente fenómeno de privatização do ensino da arquitectura em Portugal. 

     Foi refutando o pessimismo que a actual conjuntura anuncia, e permanecendo fiéis à convicção de que cada um deve “semear a horta no seu quintal”, que os quatro colegas de faculdade, nascidos na transição das décadas de setenta e oitenta e formados entre 2004 e 2005 decidiram, já depois de vencerem o concurso internacional para a Sede do Parque Nacional da Ilha do Fogo em Cabo Verde (2007), avançar para o estabelecimento de um atelier próprio. 

     Apesar da permanente instabilidade e incerteza que escolheram para o seu dia-a-dia, dizem encarar a actual conjuntura como um desafio, mas também como uma oportunidade e, numa altura em que o significado de “Escola de Arquitectura” parece também ele transmutar-se, evocam o manifesto da Bauhaus escrito por Walter Gropius em 1919 – “A Arquitectura é o fim último de toda a actividade criativa” – como princípio conceptual da prática do atelier. 

     Referência ao espírito bauhausiano que, volvido quase um século, deverá ser interpretada como uma derradeira vontade de adequação: desenhar edifícios que, interpretando o contexto social, económico, político e cultural, respondam de forma pertinente a diferentes solicitações no que, dizem, deve ser entendido como uma visão holística do projecto de arquitectura. 

     Desse processo de trabalho é exemplo maior o projecto que actualmente estão a desenvolver para a Ilha do Fogo, no arquipélago de Cabo Verde. Pedra de fecho de uma estratégia orquestrada pelo governo local (em parceria com o governo alemão) que ambiciona reconhecer a Ilha do Fogo enquanto Património Mundial, a Nova Sede do Parque Natural é encarada como uma oportunidade única para o desenvolvimento económico e social da ilha e, consequentemente, da pequena povoação de Chã das Caldeiras. 

     É dentro dessa estratégia mais vasta e fazendo uma leitura pragmática das características naturais e económicas da ilha, da sua insólita condição e das limitações em termos de recursos, que propõem a construção de um edifício que, em estreita relação com os costumes e saberes locais, ambiciona enraizar uma identidade local muito forte, projectando-a internacionalmente. 

     Todo o objecto é bastante racional, quer na relação com a paisagem árida e aparentemente lunar da ilha, trabalhada e domesticada a partir do desenho do seupátio central, quer na cuidada adaptação aos parcos recursos disponíveis. Neste compromisso, ressalta o cuidadoso trabalho de hierarquização das diferentes escalas que, de dentro para fora, conferem ao imenso vazio da cratera a devida imponência. Numa predisposição quase teatral, o novo edifício ambiciona ser um primeiro dispositivo para interpretar e encenar a paisagem. 

     O projecto para a nova Sede do Parque Natural da Ilha do Fogo seria ainda apurado para a segunda edição do World Architecture Festival que decorreu em Novembro de 2009 na cidade de Barcelona onde foi distinguido pelo júri na secção de futuros projectos.

     É já para um contexto urbano que voltam a ser convocados para um projecto na ex-colónia portuguesa, desta feita na Ilha do Sal. O projecto para o novo complexo paroquial de Nossa Senhora da Dores, na Vila de Santa Maria, mais relevante centro turístico do arquipélago e segundo maior aglomerado populacional da ilha, é entendido como a oportunidade de dotar o Sal de um novo e generoso centro cívico, gerador de cidade e, acreditam, novas rotinas urbanas. 

     A composição aparentemente austera e simétrica conferida pela saliente nave central é quebrada ao nível do piso térreo, ali onde um deambulatório descoberto desenha nichos, passagens e entradas que, além de darem acesso ao programa de natureza mais comunitário, se relacionam com o generoso largo que servirá de antecâmara ao novo complexo paroquial, atestando assim, indubitavelmente, o carácter eminentemente urbano que se pretende conferir ao edifício. Solto da nave central, o primeiro piso, onde se desenvolve o programa de carácter mais reservado e institucional, assume-se, por oposição ao piso térreo, como conferidor de uma outra ordem, porventura mais formal. Ao centro, a imponente nave da igreja centrifuga estes acontecimentos.  

     Também por concurso, foi-lhes entregue o projecto do novo Complexo Funerário da Quinta do Conde em Sesimbra. Programa singular, que pretende oferecer uma alternativa às convencionais cerimónias fúnebres, é aproveitado para explorar alguns dos temas que já definem a prática do atelier. Princípios clássicos, como ordem e harmonia, são trabalhados numa singular e adequada articulação entre planta e alçado. 

     Tirando partindo da escolha projectual, que estabelece a altura do muro que delimita o cemitério da Quinta do Conde como dimensão de referência, atribuem especial relevância ao volume rectangular da capela mortuária onde se irá situar o forno crematório que, gozando de generoso pé direito, concentra grande parte da carga emocional associada ao edifício. A encenação desse momento é potenciada pelo desenho de três pátios de contemplação que contribuem para a correcta articulação do restante programa. 

     Na casa em Tavira voltam a eleger a integração e relação com o território como o tema central do trabalho. Partindo de uma visão abrangente, caracterizam uma vivência doméstica contemporânea, sendo a partir desse sensível equilíbrio que é dado início ao processo de construção da casa. Através do desenho em planta polvilham-na de diferentes relações com a paisagem. A articulação cuidada das diversas escalas e o desenho expressivo dos espaços remete, por momentos, para alguns dos mais recentes projectos residenciais de Álvaro Siza, nomeadamente, a Casa em Maiorca (2002-2007) e a Casa do Pego, em Sintra (2007-2009). 

     O pátio principal, central e rendilhado, relaciona-se de forma generosa com a paisagem propondo diferentes apropriações e vivências, quer interiores quer exteriores. Tanto estamos dentro, recolhidos, como fora, expostos. Em torno dele a casa desenvolve-se em U, recebendo e enquadrando o território. É na sucessão de momentos e pequenos acontecimentos, pátios, reentrâncias e vãos que se constrói a complexa e estimulante domesticidade desta casa algarvia. 

     Em programas de menor escala e de execução rápida é evidente um gosto assumido pela experimentação na criação de ambientes. A valorização do pormenor articula-se com a correcta escolha de materiais.

     Se na Joalharia Padrão procuram trabalhar os diferentes expositores como cenários boschianos, na Construtora San José utilizam uma cartilha minimalista que reinterpretam na criação de momentos insólitos. Nichos de entrada na sala de reuniões e misteriosos armários conferem ao projecto uma curiosa ironia. 

     Também as arquitecturas efémeras que experimentam nos pavi-lhões Neocity I e Neocity II revelam esse espírito de experimentação constante na procura da solução adequada aos diferentes eventos. A utilização da cor contribui para o estabelecimento de uma interessante e enriquecedora confrontação entre a experiência de estar dentro e a experiência de estar fora numa referência directa a temas abordados em outros projectos do atelier. 

     OTO, nome de origem teutónica que afirmam ter escolhido pela sua sonoridade e qualidade gráfica, remete-nos para uma conjuntura faustosa que, estão conscientes, dificilmente experimentarão num futuro próximo. É a partir de um correcto posicionamento em relação às diferentes solicitações e programas que, através de uma visão pragmática da actual conjuntura económica, este jovem atelier procura contrariar o marasmo instalado e assentar fundações, estabelecendo um claro compromisso entre arquitectura e adequação, ideia milenar que, acreditam, é sinónimo de boa arquitectura.|

 

* Título do primeiro disco do rapper lisboeta Sam the Kid, editado em 1999.

 


VER mais novos #234
VER mais novos #235
VER mais novos #236
VER mais novos #237
VER mais novos #238
VER mais novos #240
VER mais novos #241
VER mais novos #242
VER mais novos #243
VER mais novos #244
 FOLHEAR REVISTA