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Masea é um atelier de arquitectura, formado em 2008 por Miguel Abecasis (n. 1974) e Steven Evans (n. 1974), resultado de uma longa afinidade entre os dois, desde que foram colegas no primeiro ano da Faculdade de Arquitectura de Lisboa.
     Dizem não ter uma posição pré-definida sobre que arquitectura querem fazer, não ter ideias vinculativas que limitem à partida um novo objecto, que cada caso deve ser resolvido na, e pela, sua própria circunstância. Mas, a par do permanente desejo de que a arquitectura possa ser um contributo, não só, mas fundamentalmente, ético para uma construção social (em sentido lato), é evidente nos projectos destes arquitectos, e em particular no desenho, a presença de conceitos como proporção, módulo, escala, natureza, geometria, ordem, que nos remetem para uma reminiscência classicista, para uma procura de um sentir, ou mesmo de um sentido, clássico da arquitectura. A tal não será estranha a estada, de ambos, enquanto estudantes, em Itália (ao abrigo do Programa Erasmus), reconhecida pelos próprios como fundamental no modo de pensar e de desenhar a arquitectura. Arquitectura e lugar, objecto e envolvente dialogam através desses conceitos, num desejo de ser e de pertencer: ser, afirmadamente, arquitectura, pertencer, afirmadamente, ao lugar.
     É o que nos mostram no projecto para uma casa em território aberto, situada no interior de uma herdade alentejana na zona de Montemor-o--Novo. A casa abre-se e fecha-se simultaneamente à paisagem num pulsar interior-exterior orientado segundo os pontos cardeais. Abre-se como uma villa “quadrata”: os espaços interiores expõem-se a quatro diferentes “horizontes” naturais que, por contraste, anulam a geometria artificial imposta pela arquitectura. Fecha-se na sua planta quadrada: o mesmo alçado repetido nos quatro lados e a ausência de uma entrada principal absorvem as possibilidades de referência que se condensam no seu pátio interior – quadrado sem horizonte, centrado no quadrado maior –, em que o “horizonte” é a ordem conferida pela arquitectura.
     Uma grande sala abre-se – intrusão da paisagem natural na artificial – sobre uma plataforma que é a sua continuação – uma intrusão do pavimento artificial no natural.
     O microlugar, artificial e doméstico – grelha que se impõe quando se implanta na paisagem – cria uma relação simultaneamente íntima e distante com o macrolugar, natural e impreciso.
     Uma ideia de ordem é procurada no desenho do objecto e na sua inserção (na procura de um “conjunto”): “A ideia de ordem aplica-se a todas as escalas. E os edifícios devem reflectir a ordem urbana do mesmo modo que um pormenor deve reflectir a ordem do edifício.” A correcta inserção do objecto no seu contexto é, pois, fundamental.
     O projecto para o Centro Interpretativo do Tapete de Arraiolos é a proposta que o atelier Masea com Ricardo Silva Carvalho apresentou no concurso promovido pela Câmara Municipal de Arraiolos (e que ganhou o segundo prémio). O equipamento a instalar no antigo Hospital do Espírito Santo, localizado na principal praça da cidade, contemplava áreas de espaço museológico, de investigação e de divulgação do tapete de Arraiolos.
     No programa, a maior parte do espaço destinava-se a áreas de exposição, em particular, de tapetes de grandes dimensões. Por isso, a proposta optava pela ampliação do edifício no tardoz de modo a aí albergar os espaços expositivos sem que houvesse interferência com as preexistências. Ao contrário, as restantes funções – recepção, escritórios, biblioteca – que, pela sua natureza, comportam uma acomodação mais compartimentada, localizavam-se junto à fachada principal, nas zonas que se pretendiam preservar.
     A proposta insere no tecido urbano uma entidade nova, um novo elemento que não quer interferir no equilíbrio existente: na praça principal mantém-se a fachada e a volumetria e, no lado oposto, não percepcionáveis da praça, dois novos volumes, surgem na rua posterior.
     A exploração da natureza dos materiais é outra característica da obra destes arquitectos no sentido em que a artificialidade do material é vista como uma natureza paralela e tão legítima quanto a autêntica: a “natureza” dos materiais é a sua própria natureza. Se por um lado há deferência com a Natureza há, por outro, um sentido de paridade, um eventual desejo de despique (característica também evidente na casa de Montemor).
     Nos 24 apartamentos na ilha de Santa Maria, nos Açores, a modulação é o conceito que enforma o projecto. Presente na tipologia e no desenho, a modulação regra as medidas do projecto facilitando quer o sentido de ordem quer a economia da construção. A partir de uma unidade tipológica colocada lado a lado, constroem-se dois blocos de apartamentos: um com 16 apartamentos e outro com oito (em duplex). Na construção, a unidade básica é o bloco de betão (bastante corrente na actual construção açoriana); para além do aspecto conceptual, permite construir rapidamente e a baixo custo.  
     Mas o bloco de betão é usado, também por outros motivos: porque se quer que a arquitectura se funda na paisagem mantendo as cores e as texturas da envolvente. O betão e o basalto (usual nos Açores, em particular, na construção de muros rurais) são vistos como afins. Quer-se que os muros envelheçam como se fossem muros de pedra. Há uma vontade de fusão e nessa vontade o material ganha o sentido do contexto. Significa que o desenho não prevalece sobre a percepção: a arquitectura está do lado da percepção, do usuário.
     O bloco de betão torna-se módulo; módulo que facilita a aplicação da proporção, o encontro do equilíbrio, de um sentido de ordem. Esta ideia é afirmada em Almacén em que um outro bloco de betão, agora com 30 cm x 19 cm (e juntas de 1 cm) proporciona o aparelhamento alinhado e o encontro continuado dos planos horizontais e verticais.
     Este espaço, desenvolvido a partir do tosco de um piso térreo comercial de um edifício novo localizado no centro histórico de Gijón, é a sede de uma empresa que representa, vende e distribui vestuário.
     É a loja-bandeira da marca, a imagem da empresa. Para além da loja, o espaço alberga diversas funções: showroom para revendedores, armazém e escritórios.
     Há a intenção de um distanciamento em relação ao que é habitual nas intervenções deste tipo, pensadas para serem efémeras. Aqui, a construção, ao contrário da que faz uso dos materiais ligeiros, é pesada e áspera. Projectou-se e construiu-se um “cenário” perene, estável, remetendo para a ideia de imagem constante que, no passado, era usual as lojas manterem. Pretende ser um pano de fundo invariável para colecções de moda efémeras, que se vão renovando: um contraste entre a solidez dos materiais e as peças de vestuário em constante mutação. Mas a construção não contrasta com o edifício em que se insere, nele se dilui; tal como em Santa Maria se dilui na natureza.
     Não tendo uma estratégia de projecto ou metodológica traçada à partida, Miguel Abecasis e Steven Evans, também não alteram as expectativas consoante o tipo de cliente. Se por um lado o bom cliente pode ser um catalizador e um mentor de boas ideias, o cliente abstracto (no caso, por exemplo, de um edifício público) também não é inibidor. E, dizem, é sempre possível transformar as contrariedades em algo positivo.
     É fundamental ser ambicioso no uso do objecto arquitectónico. Extravasar o próprio objecto. A austeridade da construção contrasta com a ambição que se deseja para o uso do objecto – um espaço vazio que vai ser ocupado.
     O projecto para a Casa do Ambiente está inserido no plano do futuro parque do Alto de Colaride (área de cerca de 60 ha entre Cacém, Agualva e Massamá), objecto de um concurso público internacional promovido pela Câmara Municipal de Sintra ganho pelo atelier Masea em parceria com a Atkins (Portugal) – Projectistas e Consultores Internacionais. O objectivo do concurso era, não só preservar este território com características naturais notáveis, mas também qualificar a área urbana envolvente.
     Para a localização deste equipamento os arquitectos tiveram em conta diversos aspectos: a escolha do local mais ameno e mais aprazível para usufruir dos espaços exteriores, a proximidade à zona de estacionamento automóvel e ainda, a planura do terreno que permite economizar no custo da construção.
     Era propósito do concurso que a Casa do Ambiente viesse a colmatar uma lacuna na oferta de equipamento naquela zona, pretendendo ser, em sentido lato, um centro comunitário, com objectivos pedagógicos – um pólo de ensino e divulgação de temas relacionados com o Ambiente –, proporcionando, simultaneamente, “espaço” para o lazer. O programa, cuja resolução se pedia fosse flexível, inclui áreas de exposição, um auditório, um centro de actividades para crianças, um restaurante de apoio.
     O edifício é composto por dois corpos ligados através de uma passagem coberta que define o limite de um terreiro empedrado. Um corpo de planta quadrada (lado com 25 m como na Casa de Montemor) implanta-se num socalco sobranceiro a um outro corpo de planta longitudinal, alinhado segundo os pontos cardeais e que segue uma linha de árvores.
     Os espaços exteriores, que se pretende, com o edifício, formem um conjunto único, são pensados como extensão dos corpos construídos e das actividades que aí se desenvolvem – mercado de fim-de-semana, cinema ao ar livre no terreiro, horta pedagógica para crianças e jardim com árvores de grande porte junto ao corpo longitudinal.
     Pretende-se um edifício aberto à comunidade local e que tenha capacidade para incutir um “sentido de comunidade”, um espaço de encontro. O edifício quer ser, assim, uma referência no local, que esta referência seja mais do que local, um equipamento cultural e pedagógico com alcance para lá da sua área concelhia. A obra quer ser uma influência positiva, um catalizador: a ética no desejo para a arquitectura.
     São obras de arquitectura que procuram um sentido interior e um sentido exterior. No encontro, surge a ordem que regra o desejo.|

 


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