Os Arquitectos Anónimos® são uma estrutura criada em 2006 por Filipe Afonso (Porto, 1976) e Vasco Magalhães (Porto, 1973) – dois arquitectos que, apesar de se terem ambos formado na Escola Superior Artística do Porto, apenas se encontraram, mais tarde, já no exercício da prática profissional. São responsáveis pela gestão da estrutura, sedeada na cidade do Porto, mas não pela exclusiva autoria dos projectos nela produzidos. Para cada novo projecto, e em função da especificidade desse projecto, os dois arquitectos associam-se a outros arquitectos ou a profissionais de outras áreas constituindo uma equipa de trabalho que, nessa circunstância, opera em co-autoria. A dissolução da autoria evocada pela designação “Arquitectos Anónimos®” advém, portanto, de duas opções de ordem operativa
Por um lado, os dois arquitectos recusam a ideia romântica de autoria – aquela que se baseia na escolha idiossincrática de formas e que se traduz em obras cuja razão de ser radica no “universo poético” individual do seu autor (um quadro paradigmaticamente examinado por Roland Barthes) – a favor de um sistema baseado na interacção entre indivíduos. A interacção, por obrigar à comunicação verbal, é propícia ao exercício da consciência, à reflexão e à auto-reflexão.
E, consequentemente, dela advêm obras que incitam a um tipo de recepção mais activo e mais livre do que a descodificação de metáforas (dependente do quadro de referências pessoais ou autorais). Anunciando uma identidade plural, a designação “Arquitectos Anónimos®” junta ao universo do branding a irónica evocação das lutas contra dependências que não são tornadas públicas.
Por outro lado, a dissolução da autoria ego-centrada completa-se na inclusão circunstancial de outros elementos nas equipas de trabalho – contexto no qual a ideia de “colaborador” ou de “consultor”, em vez de obedecer à habitual hierarquia, se torna integradora e igualitária. Para além da pluralidade das equipas de trabalho, por vezes a exploração de modalidade de autoria por parte dos Arquitectos Anónimos® aproxima-os do abandono àquilo que é circunstancial ou aleatório como modo de decidir sobre a obra.
O abandono ao que é circunstancial manifesta-se genericamente na disparidade formal entre os seus vários projectos. Reivindicam uma postura de radical aceitação dos condicionalismos. Trata-se, por exemplo, menos de “convencer o cliente” do que de potenciar os seus desejos como motor para o processo criativo. O conjunto particular de dados de que parte cada projecto não é subordinado a um “modo de fazer” preestabelecido – modelo operativo de acordo com o qual novos dados tendem apenas a dar origem a variações formais dentro de uma linguagem reconhecível. Em vez disso, em cada novo projecto, esse conjunto de dados é o ponto de partida para encontrar uma estratégia de projecto especificamente adequada à circunstância. Daí resultam projectos que, na sua aparência, são difíceis de atribuir a um mesmo atelier de arquitectos. Por exemplo, o projecto de valorização do Castelo de Arraiolos (2008), realizado com Hugo Reis, João Castelo Branco e Miguel Pereira, conduziu a uma solução muito peculiar e que pode ser sintetizada na fórmula “projecto de chão estruturas insufláveis”. Noutra situação – o projecto de uma casa low budget (2007) realizado com Paulo Teodósio e Ricardo Fonseca – a solução foi uma pragmática casa-ícone pragmaticamente revestida com cortiça.
Para além destes aspectos de ordem mais genérica, em alguns projectos, a equipa estabelece estratégias criativas que se alimentam muito concretamente do acaso. Quando assim é, seguem uma tradição do universo da arte que, nas suas expressões mais irreverentemente antiartísticas, remonta a vanguardas históricas do início do século xx, como o dadaísmo, mas que, considerando vertentes mais complexas ou mais sistemáticas, passa por várias obras de arte conceptual cuja génese é a dependência relativamente a agentes exteriores. Um exemplo: a Following Piece (1969) de Vito Acconci – uma obra na qual o artista segue todos os dias,durante 23 dias, uma pessoa que circule na rua até que ela entre num espaço privado e por isso inacessível. Na obra dos Arquitectos Anónimos®, pode tomar-se como referência o projecto Villa Fornea (2009), concebido com Hugo Reis e Nicolau Ribas. O programa prevê a cobertura de uma ruína romana e a criação de um pequeno equipamento museológico de apoio à visita dessa ruína. Para especularem sobre as possibilidades formais do edifício, foi utilizada uma maqueta feita com uma fita de polietileno. No interior de um quadrado que baliza a área de intervenção, essa fita foi fixa apenas em alguns pontos – cinco pontos que servem de referência para a definição dos sectores que devem ser cobertos e que, ao mesmo tempo, correspondem à localização adequada para as fundações do edifício sem que estas interfiram com o património arqueológico. A partir desses pontos, foram as reacções de tensão e compressão da fita, dentro do limite do quadrado, que conduziram às possibilidades de forma.
Nada do que até aqui se descreveu é exactamente novo. Os Arquitectos Anónimos®, como outros da sua geração, mas com uma consistência notável, inscrevem-se numa tendência internacional inaugurada por colectivos de arquitectos como MvRdV, FOA, SANAA, R. & Sie, Lacaton & Vassal, Diller Scofidio – colectivos cujas designações se situam entre as siglas desafectadas do mundo empresarial e os nomes das bandas de música que são habitualmente precedidos de “os” (um pouco à imagem do que já se verificara com os nomes dos grupos da arquitectura radical do final da década de 1960). Também eles tendem a conceptualizar os seus processos de trabalho e por isso se propicia que operem colectivamente. Também eles potenciam os contextos nos quais intervêm entendendo-os, não de modo histórico-morfológico (o universo neo-racionalista “cartografia tipologia” subjacente mesmo aos objectos mais sofisticadamente depurados), mas antes de modo abstracto: como uma conjuntura de projecto, como uma oportunidade de tomada de posição política sobre a ideia de “projecto”; e, dentro da ideia de “projecto”, sobre a ideia de “autoria” enquanto duvidosa prerrogativa de decisão sobre a forma.
Trata-se, portanto, de um tipo de operatividade que advém dos mais profícuos fenómenos da arquitectura da década de 1990. Já passámos por outra década, mas num campo artístico tão conservador como o da arquitectura (e do seu ensino), continua a ser o que há de menos conservador.
A década de 1990 parece continuar a constituir a referência para a possibilidade de a arquitectura ser relevante do ponto de vista criativo, ou auto-reflexivo. E, dentro deste universo de referências, os Arquitectos Anónimos® inscrevem-se na linha daqueles cuja arquitectura é menos anónima.|