Falar dos condicionalismos de uma globalização rápida é falar da capilaridade das problemáticas cada vez mais comuns em cidades metropolitanas de três quartos do mundo, alvéolos humanos que albergam milhões de pessoas, com percentagens significativas, em todas elas, de uma pobreza estrutural cada vez mais alargada.
Não são os mundos que são emergentes, mas a nossa percepção mais sensitiva (porque mais familiarizada com...) da afectação fisiológica e morfológica da célula, do órgão, dos sistemas... do organismo urbano. Há novos materiais genéticos com que se faz cidade.
Os graves problemas e os desafios com que nos debatemos são mundiais. Olhando pela janela, em Luanda, um lugar onde a beleza e o horror convivem de mãos dadas, a consciência do mundo assimétrico invade-nos diariamente e sem anestesia, como um alerta que não deixa adormecer as cidades dos países em desenvolvimento. Num mundo sentido por vezes como insignificante e gratuito, a ansiedade pelo efeito de choque, de surpresa, caracteriza a vida da metrópole, acrescentando-lhe um novo valor: a desfamiliarização em contraste com a familiarização e o sentido de segurança, advindo dela.
Na era da reprodução, as técnicas convencionais de construção de estruturas e de revestimento, correspondem também à superficialidade e à precariedade da cultura mediática. Troca e transacção são valores presentes que parecem satisfazer novas necessidades criadas. Aceitar essa lógica significa que qualquer obra é transaccionável com o mesmo desprendimento com que mudamos o revestimento interior de um quarto.
O efeito de choque, o impacto, opõe-se à nostalgia da permanência e da autoridade, tanto na cultura em geral como na cidade. Esta manifestação de mudança não deve ser entendida necessariamente de uma forma negativa. Na arquitectura, significa uma debilitação desta disciplina como forma de dominação, poder e autoridade. A contaminação de todas as categorias e as suas substituições constantes, a fusão dos géneros têm sido utilizados em benefício próprio ou da reutilização da arquitectura.
Se a arquitectura é, simultaneamente, conceito e experiência, espaço e uso, estrutura e imagem superficial, então talvez se ganhasse em fundir os géneros, combinar programas e espaços num novo conceito de programação cruzada. O conceito moderno de relação hierárquica de causa-efeito entre função e forma – do desenho para resolver as nossas necessidades – é oposto às inesperadas combinações da realidade urbana actual. As novas definições passam pela combinação de conceitos heterogéneos e incompatíveis.
Não há arquitectura sem acontecimentos, nem arquitectura sem acção, nem actividades sem funções. A cidade, esta, faz-se da combinação dos espaços, acontecimentos, movimento, interacção/transição entre público e privado, sem hierarquia entre esses conceitos.
A heterotopia, como conceito actual, é contrária à defesa de uma utopia unificada, e fala de terrenos de acção múltiplos, fragmentados e deslocados. Talvez a arquitectura se encontre numa situação ímpar. É a única disciplina que, por definição, combina conceito e experiência, imagem e uso, imagem e estrutura. Os filósofos podem escrever, os matemáticos podem desenvolver espaços virtuais, mas os arquitectos são os únicos que estão prisioneiros desta arte híbrida em que a imagem não existe praticamente sem uma actividade combinada. E, apesar da resistência em questionar as suas estruturas e fundamentos, este poderá ser o campo onde se operem as maiores transformações neste século que começa. A mesma heterogeneidade na sua definição acompanha a transformação de nós mesmos.
A substituição e a reformulação dos diferentes elementos da arquitectura, muitos deles derivados, ou a súmula das inquietações sociais contemporâneas, podem conduzir-nos a soluções ou a hipóteses de soluções. Não creio que essas tentativas passem pelos projectos que formalmente tentem redesenhar estruturas tradicionais, mas em desenhar as condições que tornem possíveis essa realidade social não hierarquizada e não tradicional, de modo a que a nossa acção se converta na experiência da cidade real que vivemos.
Luanda, Cidade do México, Lagos, Nova Deli só são aparentemente caóticas. Porque, ao contrário da ideia geral e negativa sobre a megacidade, são sinónimo de uma nova estrutura urbana, uma nova urbanidade. Importa perceber as suas confrontações e combinações de elementos, e encontrar as lógicas internas das suas vidas paralelas, onde estão implícitas regras, outras regras, não oficialmente aceites como politicamente correctas. É lá que está o cerne da mudança, do ponto de inflexão da cultura e da sociedade que os poderes insistem em considerar como o negativo de um filme cujas imagens reproduzem a ficção da cidade tradicional.
Estima-se que a percentagem de pessoas excluídas do mercado formal da terra, da habitação e dos circuitos económicos no mundo inteiro seja de 40 por cento. Nos países desenvolvidos 15 a 17 por cento das populações urbanas vive fora dos sistemas convencionais dos mercados. Em Luanda, Bogotá, Cidade do México, Nova Deli, 80 por cento do mercado económico e de habitação é desenvolvido por canais informais e urbanizações-pirata, o que prova que o sector público, privado e o privado informal movimentam e orientam os seus esforços em direcções divergentes.
Esta cidade informal não é transitória, veio para ficar e constitui um fenómeno urbano com identidade própria que requer formas específicas de intervenção. Em Luanda, quatro quintos da cidade vive na cidade informal, da cidade informal e para a cidade informal. A compreensão dos seus mecanismos de desenvolvimento económicos e sociais está para além da contabilidade e da macroeconomia corrente.
Estas novas cidades, de carácter global, caracterizadas por uma nova forma de interacção social, que se desenvolveu nos últimos 30 anos, tende a expandir-se mesmo aos núcleos urbanos ricos. Não se trata de uma sociedade de informação nem de comunicação, mas de um outro tipo social onde as componentes foram alteradas: o trabalho, a produção, o comércio, o dinheiro, a escrita, a imagem corporal, a noção do território e a memória. Estas novas relações rompem os limites territoriais das cidades e dos estados clássicos e geram uma nova forma de organização global, dificilmente representada em plantas, mapas, porque se trata de uma realidade imaterial.
A nova metrópole é uma cidade sem contexto territorial definido e a sua estrutura básica é a rede de indivíduos. Esta nova cidade sobrepõe-se às vilas, às cidades, sem as destruir fisicamente; assenta no conceito de que o fenómeno de distribuição constitui o verdadeiro cerne da cultura urbana contemporânea.
As metrópoles são o campo experimental onde os fluxos materiais e imateriais, físicos, informativos ou simbólicos, estão profundamente ligados, com valor distributivo, não como uma auto-estrada ou telefone, mas como a justaposição de uma multiplicidade, constatando-se que a realidade em que vivemos está assente em malhas que acumulam interconexões, perante as quais a ideia de via ou conduta é redutora e insuficiente.
Circulação, troca, cruzamentos, movimento, transacção e, sempre, transição. Por isso a infra-estrutura tecnológica é também vital no planeamento da cidade. A habitação, especialmente na grande cidade, continuará a ser, quantitativamente, o tema mais importante para os arquitectos e a arquitectura, como problema central de carácter sócio-político.
Esta nova cidade tem vindo a mudar o conceito de casa, que se transformou metaforicamente em casa aberta, e que, além da sua ligação territorial, cultural e urbana, está também ligada, directamente, a outros pontos do planeta.
O futuro da cidade está relacionado com as transformações que se têm vindo a experimentar ao implantar em nossas casas uma série de conexões electrónicas que são o nosso interface com a cidade global, numa ambição inversamente proporcional à condição económica. (Rouba-se ou mata-se para ter um telemóvel!) Para uma percentagem mínima de população, o teledinheiro (cartões de crédito, transferências electrónicas, informação bancária); para grande parte, a tele-imagem (televisão, correio electrónico, vídeos, filmes, bases de dados) e o tele-som (telefone, rádio, discos compactos, gravações): estes artefactos tornaram-se elementos essenciais dentro da habitação, através de uma cultura altamente comercializada, cuja incidência nas características e qualidade da habitação acabada ou permanentemente transformada, é decisiva. Com muito mais expressão do que as formas tradicionais de intervenção profissional dos arquitectos, estes novos elementos aparecem como partes decisivas na distribuição do espaço, na disposição das máquinas que ajudam o trabalho doméstico ou na definição do carácter simbólico que o utente quer atribuir à sua casa, como resposta às necessidades de identificação e gratificação estética, na mesma proporção que precisamos de janelas, portas, ruas, caminhos.
A chave da revolução doméstica está na transformação da distinção clássica entre o domínio privado e público. Mesmo nas sociedades mais pobres, a televisão é disso exemplo: representa a invasão dos espaços privados pelas múltiplas representações da vida pública, invertendo e propondo novas formas de demarcação do íntimo, do privado e do público.
Os espaços de transição, como espaços de transacção permanente, ganham uma importância vital na hierarquia espacial da cidade e pressupõem uma grande transformação na estrutura produtiva. Grande parte do congestionamento das cidades advém da necessidade de nos deslocarmos fisicamente para trabalhar, comprar, tratar de assuntos administrativos. Os sectores económicos mais fortes poderão adaptar-se a uma produção, distribuição e consumo à distância, os sectores de uma economia de subsistência usarão os espaços de transição entre a casa e a rua como lugar privilegiado de venda, distribuição e consumo.
A percentagem de pessoas que desenvolverá parcial ou totalmente, a sua actividade laboral dentro das suas casas e próximo da residência crescerá nas próximas décadas. Nas classes altas, a população sairá à rua para se distrair e descansar nos lugares onde se produzem os acontecimentos da máxima intensidade estética. Para as classes baixas, numa clivagem cada vez mais acentuada, pessoas, bens, serviços, informação, circularão constantemente. Há aqui uma inversão fundamental do valor do espaço público e privado.
Há o regresso a épocas em que a casa era a unidade de produção económica. Hoje, até os escritórios e oficinas voltam ao domínio doméstico, como durante a revolução industrial. A actividade comercial está profundamente concentrada e é difundida a partir de espaços domésticos. O mercado, nas suas várias expressões, invadiu as casas transformando a actividade da rua e da praça em actividades de âmbito doméstico (nova expressão física e urbana da vida laboral) para uma percentagem significativa da população urbana.
Os costumes privados, a utilização do tempo doméstico e da interacção entre as pessoas dentro das casas vai contribuindo, com uma importância económica e social crescente, e talvez positiva, para o equilíbrio da metrópole. A transformação do tempo doméstico em tempo de trabalho é uma das grandes bases da economia da nova cidade.
O controlo do que se poderá já chamar o sector doméstico entendido como um sector económico cada vez mais pujante, constitui uma das grandes novidades desde o fim do século passado. Luanda é disso exemplo. A internacionalização da vida doméstica tem como grande privilégio gerar hábitos e culturas mestiças numa percentagem significativa da população.
Sob o ponto de vista cultural, a habitação e a sua envolvente foram o marco onde se produziram as maiores transformações. A circulação de representações, passadas na televisão, de formas culturais diferentes tem vindo a gerar um sistema de identificação mais complexo e variado do que é habitual nas culturas sedentárias, pelo confronto dentro das casas com formas mais plurais. Cada pessoa pode “arquivar”, seleccionar ou mesmo reproduzir aquelas formas (da natureza, da vida social, da cultura) que mais a atraem. Esta interferência, que abrange a população urbana de todo o mundo, onde cada vez mais a televisão chega, mesmo aos lares mais pobres, articula-se em expressões variadas com os sistemas tradicionais de valores, crenças e relações sociais intrínsecas às sociedades locais.
A enorme quantidade de variáveis indefinidas que entra neste jogo não pode ser resolvida com os mesmos instrumentos de controlo e gestão da cidade. É necessário avaliar as vocações da megacidade e as estratégias em função delas. Estratégias dinâmicas que permitam criar guiões em fases sucessivas, que substituam os planos gerais e apontem para a necessidade de morfologias abertas, interactivas, em que os mínimos critérios, regras essenciais à procura do rigor, sejam as únicas leis que organizem o rápido crescimento e o processo que normalmente gera a passagem de um estádio urbano a outro.
Estes critérios não podem ser só critérios de desenho urbano, devem entender e integrar redes, malhas, movimento, no sentido de multiplicidades justapostas, como substância em si mesmo do projecto. Os lugares e as estruturas, a implementação de energias e recursos produzem-se capilarmente, a todos os níveis e em todos os estádios. Só uma interacção destes sistemas com a arquitectura, agindo simultaneamente como expressão dinâmica da mudança, podem dar lugar a uma cidade (e a uma arquitectura) compatíveis com as características do seu próprio processo. Processo com uma grande autonomia, no qual a directriz principal precede mais do seu próprio interior do que das exigências ou restrições estabelecidas. São energias que emanam do núcleo até aos limites exteriores. São elas que estabelecem as linhas configuradoras, gerando-se os novos espaços a partir da sua lógica própria e desde do enunciado das suas necessidades, muito mais do que a partir de um sistema de relações explicadas por condições pré-definidas.
Ironicamente, parece haver uma descoordenação entre as funções tradicionais e convencionais dos arquitectos em contribuir para uma mais-valia na racionalidade, economia ou bem-estar social. A clivagem entre arquitectos e sociedade é cada vez maior, e a cidade, a expressão real de um autismo profissional que nos obriga a conviver, penosamente, com uma onda de revivalismo da arquitectura clássico-eclética, própria da cidade capital do século XIX, assim como um revivalismo neo-racionalista, com repertórios ideológicos e linguísticos que têm como pano de fundo a ideia de que a arquitectura é capaz de fabricar e controlar a totalidade do ambiente, ocultando outros modelos e sem capacidade para imaginar e se deter na globalidade do que realmente acontece à nossa volta.
Como diz Júlio Teles Grilo, é difícil explicar aos outros como nós, arquitectos, somos parte financeiros, parte políticos, parte sociólogos, parte artistas, parte engenheiros, parte de muitas partes, mas nunca especificamente nenhuma e que todas as coisas são assim, como o pão que é farinha e fermento e água e sal, e no fim é pão.|