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E-studio (extrastudio - arquitectura, urbanismo e design, lda) é um atelier localizado numa antiga serralharia, no estaleiro da Rocha Conde de Óbidos, em Lisboa, que foi formado, em 2003, por João Caldeira Ferrão (n. 1975) e João Costa Ribeiro (n. 1976). 

A internacionalização e a percepção de uma incontornável dimensão globalizante da arquitectura são, no e-studio, potenciadoras de uma introspecção sobre as suas áreas de actuação, permitindo a esta dupla de arquitectos reinventar relações com a cultura dos sítios, com base num referencial de memórias edificado a partir dos próprios projectos, fixando neste processo uma das bases de experimentação do atelier. Para tornar possível este procedimento, desenvolvem pesquisas sobre materiais que, em paralelo com as acções de projecto, reforçam o universo arquitectónico do e-studio. O betão orgânico, desenvolvido para a Experimenta Design em 2005 é um bom exemplo, fundindo o carácter inorgânico do betão, com a introdução de favos de terra natural que permitem o desenvolvimento de vegetação, criando no seu conjunto uma superfície híbrida aparentemente consumida pelo tempo. A recuperação da Alameda do Toural, em Guimarães, realizada pelo Centro de Estudos da Universidade do Minho em parceria com o arquitecto paisagista Daniel Monteiro, irá permitir a aplicação primeira deste material cuja patente foi já registada pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial. 

No projecto da loja/cafetaria Fugas Lusas (2007), em Setúbal, são os azulejos floridos em relevo do balcão e o recorte orgânico das placas do tecto que promovem o encontro com um tempo passado que, em realidade, nunca chegou a existir. Esta ambiguidade que materializa a loja expressa um desejo de manipulação do tempo e da memória, expressando também a actuação, com base na pequena escala, do trabalho «realista» do arquitecto contemporâneo que, nessa sua actuação algo periférica, procura seduzir acontecimentos a partir do gesto rigoroso, reposicionando materialidades em desuso que são potenciadas através da arquitectura. É também esta acção que ocorre na pastelaria da Serra das Minas, em Sintra, de 2008, onde no conflito do subúrbio se edifica uma espacialidade epidérmica e algo cenográfica, que em conjunto com o padrão de mosaicos hidráulicos, especialmente realizados para o local, fixam uma atmosfera economicamente requintada. 

A investigação sobre a materialidade e a acção de reposicionamento aproxima o trabalho do e-studio a processos artísticos de vanguarda, onde emerge uma espécie de eleição residual, ou objet trouvé, que caracteriza e informa a obra, debatendo-se, ainda assim, um certo loca-lismo, que adquire expressão internacional na genealogia da acção.
Este processo de fusão entre a arquitectura e o universo artístico, restaurado na década de 90, por personagens como Herzog, De Meuron e Rem Koolhaas, foi acompanhada de perto por esta dupla de arquitectos, quando, no decurso da sua formação, tiveram a oportunidade de passar pelos seus escritórios.

O percurso do e-studio tem sido pautado pela busca de uma base credível, por isso são os projectos para locais comuns, como a loja de Setúbal, a pastelaria de Sintra, que têm permitido aferir a sua linha de actuação. O mesmo acontece na moradia da Ajuda (2005-2009), onde desenvolvem um comum programa unifamiliar. Esta moradia é a primeira obra da dupla de arquitectos onde a forma arquitectónica está presente. Relacionando-se com o determinismo do bairro de Paulino Montez, a aparente banalidade do projecto de uma moradia coloca questões de complexidade morfológica entre a parte e o todo; o desejo de experimentação é, no entanto, assumido, procurando-se uma conciliação entre a nova casa e a envolvente.   

Outra área de actuação do e-studio tem sido a das investigações projectuais ao nível do espaço público, realizadas através de concursos, permitindo-lhes a experiência da grande escala. O projecto mais relevante corresponde ao parque urbano de Valdebebas (2009) com cerca de 70 hectares, onde, em competição internacional, obtiveram uma menção honrosa. A proposta que apresentaram preconizava o enlace da especulativa envolvente, onde se insere a nova cidade judicial. Em torno desta ideia base, um conjunto de clareiras permitiria o uso informal do parque, que seria infra-estruturado, com um lago e com um sustentável sistema de recolha de água. A simplicidade e contenção da ideia adquiriu relevância junto dos promotores, a braços com forte crise do sector imobiliário espanhol. O espaço público representa para os arquitectos, de um modo geral, uma possibilidade de debate sobre a condição actual das cidades, constituindo-se para o e-studio como uma oportunidade de trabalho, implicando, necessariamente, um ingresso em áreas disciplinares externas à própria arquitectura, como seja o paisagismo ou a botânica; contudo, é a compreensão urbana da grande escala que transforma estes exercícios em processos arquitectónicos: a proposta para o parque urbano de Valdebebas é, antes de tudo, um gesto urbano que procura integrar a expansão periférica da cidade de Madrid.

A consciência de que a arquitectura carece de tempo de sedimentação, aliada a um sentido «realista», acabam por unificar o percurso de João Caldeira Ferrão e João Costa Ribeiro, dando sentido a um itinerário, talentoso, que qualifica os primeiros passos do atelier e-studio.|

 


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