CIDADE 'CASA-GRANDE'
No início dos anos 50, o sociólogo francês Roger Bastide, que viveu 16 anos no Brasil, publicou, no jornal O Estado de S. Paulo, uma série de artigos sobre a capital paulistana.1 Tratava-se, então, de prática comum entre pensadores das ciências humanas debater em público questões arquitetônicas e urbanísticas, haja visto os exemplos dos poetas modernistas Mário e Oswald de Andrade, entre tantos outros.
Conhecendo de perto o modelo da cidade européia (sobretudo parisiense), com sua estratificação social estampada em altura na organização dos edifícios – o primeiro e o segundo andares reservados para a burguesia rica, os outros para a classe média, e os sótãos para os empregados domésticos –, Bastide distingue com clareza traços particulares do processo de verticalização de São Paulo. Verticalização que reconhece ser o destino da cidade, em função tanto do crescimento demográfico, quanto da elevação do preço dos terrenos e do problema crônico de circulação. No entanto, para o sociólogo, esse vetor de crescimento vertical está em contradição direta com a “mentalidade horizontal” da formação colonial brasileira, forjada na experiência distendida da vida nas sedes de fazenda, e na promiscuidade familiar do sistema Casa-Grande & Senzala, analisado pelo sociólogo Gilberto Freyre em 1933.
Em Sobrados e Mucambos (1936), o próprio Freyre interpretou a sobrevivência desse padrão de sociabilidade rural no espaço das cidades brasileiras em processo de verticalização. Bastide, contudo, mesmo seguindo essa diretriz básica focalizada no sobrado, enxerga no “arranha-céu” paulistano a condensação das contradições apontadas nas dualidades de Freyre. Pois o arranha-céu, para ele, “ao construir-se sobre as ruínas da antiga cidade, não desmancha essa estrutura comunitária, separa-a em altura apenas, e a reduz à miniatura”. Quer dizer: os edifícios são empilhamentos de casarões/senzalas coloniais miniaturizados, reproduzindo verticalmente tanto a estrutura familiar patriarcal, com sua miscigenação paternalista, quanto a organização fundiária da cidade feita de sobrados, com seus tamanhos exíguos de lote, recuos laterais obrigatórios, etc. Diferentemente do caso europeu, em que os empregados constituíram-se como grupo separado, “independente, cioso das suas prerrogativas” e “comprometido na luta de classe com os patrões”, aqui eles são considerados membros da família. Portanto, de acordo com Bastide, “o arranha-céu respeita as leis da estrutura social do Brasil e as inscreve nas suas linhas verticais”.
O advento da arquitetura moderna na Europa, no início do século XX, representou a invenção de um “novo morar”, em que a ociosidade espacial da mansão burguesa, dependente do trabalho abundante de serviçais, é substituída pela compactação dos ambientes (existenzminimum), pela redução ou eliminação dos espaços exclusivos de circulação (corredores) e pela racionalização de cômodos vitais para o trabalho diário, como a cozinha, equipados por artefatos industriais e integrados às áreas de estar. Hoje, em São Paulo, mais de meio século depois das observações de Bastide, apartamentos cada vez menores continuam compartimentando ad infinitum os seus ambientes a ponto de manter, religiosamente, uma senzala inabitável junto à cozinha – quarto, banheiro e área de serviço –, devidamente isolada da área social, no entanto, por uma copa. Não me refiro, aqui, à habitação popular, mas a um padrão de classe-média que privilegia lavabos, playgrounds e vagas para automóvel em detrimento de melhores espaços para moradia.
Muitos arquitetos, ou leigos simpáticos ao que supõem ser a causa nobre da arquitetura moderna, elegem o neoclassicismo requentado que prolifera no mercado imobiliário da cidade como foco de ataque. Trata-se de um problema mal posto, já que essas fachadas “históricas” apenas espelham, do ponto de vista do gosto, uma mentalidade colonizada, profundamente enraizada na organização familiar e na estrutura fundiária da cidade.
CIDADE JARDIM OU ANTICIDADE?
No dia 24 de maio de 2006, ainda sob o alerta dos confrontos entre o PCC2 e a polícia em São Paulo, um evento pacífico nos alertou para aspectos diversos da disputa urbana na cidade. Refiro-me à manifestação de 200 moradores da Favela Jardim Panorama em frente à festa de lançamento do Parque Cidade Jardim, um enorme complexo imobiliário de luxo à beira da Marginal Pinheiros (já quase pronto em 2009), que contará com nove edifícios residenciais, quatro torres de escritórios e um shopping com grifes famosas. Em estilo neoclássico, o projeto é assinado pelo arquiteto Júlio Neves (também incorporador imobiliário e manager cultural3), e vende a idéia de ser a ponta de lança de uma nova urbanidade para os ricos, que combina conforto, segurança, trabalho e livre ostentação do consumo.
Ao lado do futuro condomínio está a favela, estabelecida há mais de 20 anos, e com um padrão de urbanização razoável. Mas qual era, então, o motivo da manifestação? Como se divulgou na imprensa, os moradores vieram mostrar aos novos vizinhos, e à sociedade, que eles “existem”. Algo que talvez pareça óbvio, mas não é.
Pode-se dizer que as ações do PCC tiveram, também, o mesmo sentido. Com a diferença de que, nesse caso, foram ações violentas generalizadas, sem orientação política ou ideológica. Já o movimento dos moradores do Jardim Panorama, ao contrário, é uma lição de civilidade no “coração” da riqueza paulistana, através de uma ação de resistência contra o seu previsível aniquilamento. Ambas, no entanto, explicitam o abismo social crescente na cidade, a “dinâmica de desintegração” suicida na qual estamos metidos, cobrando da elite um olhar sobre a questão. Isto é: será possível fingir que esses dois mundos não se tocam, e pretender um futuro tranquilo sem qualquer resgate de um projeto comum de integração social?
É claro que, num plano imediato, as ações violentas aprofundam mais essa divisão, reforçando o encastelamento da classe AAA em condomínios fechados, autosuficientes e ostentatórios. Mas será esse o projeto de futuro da nossa elite?
Voltemos à favela. Os seus moradores estão conscientes de que a dinâmica territorial urbana é um processo de luta. E já conhecem as truculentas estratégias de intimidação usadas em remoções anteriores, como na Operação Urbana Água Espraiada.4 Mas quais são as forças em disputa? Se as “leis do mercado” imobiliário empurram os pobres para as periferias, longe dos empregos e serviços urbanos básicos, o poder público é a instância que deve garantir um princípio democrático no uso dos espaços da cidade.5
Hoje, vive-se uma situação paradoxal: de um lado, as “parcerias público-privadas” tendem a privatizar esse princípio coletivista. De outro, os instrumentos públicos de defesa dos interesses sociais se solidificaram, com a definição das Zonas Especiais de Interesse Social (ZEIS) no Plano Diretor, e a criação do Estatuto da Cidade. A manifestação do Jardim Panorama é, portanto, uma aposta na efetividade dos instrumentos democráticos. E o seu sucesso ou fracasso, será um índice da viabilidade do futuro que queremos construir.
Segundo o dicionário, perspectiva é a vista de longe até onde os olhos alcançam.
É sentimento de esperança e expectativa. É contar, ter como provável ou conseguir. Perspectiva é ter um projeto e acreditar nele. É desenhar um objetivo e fazer de tudo para chegar lá. Perspectiva pode ser uma representação tridimensional, linhas paralelas que vão em direção a um ponto de fuga e também podem ser os nossos sonhos, vontades e aspirações. O Parque Cidade Jardim foi concebido em cima dessas perspectivas, concretas e abstratas. Muito mais do que perspectivas arquitetônicas, ele traz perspectivas de vida que a cidade nos roubou, como caminhar depois do jantar, andar com segurança ou fazer compras a pé. São desenhos de projetos de vida. São esboços de uma cidade mais habitável, mais humana e mais saudável.
Diferentemente da maioria das propagandas de lançamento imobiliário, feitas de frases diretas e hiperbólicas, esse texto de apresentação do condomínio Parque Cidade Jardim convida a uma divagação “desinteressada”. Pérola do gênero, parece uma mistura de autoajuda com manifesto de classe. Sim, pois se num primeiro momento lança mão de táticas de encorajamento pessoal e coletivo, tratando o leitor como alguém que deve ser estimulado para encontrar-se consigo próprio, em seguida o inclui entre seus pares (“nós”), em referência ao que a cidade “nos roubou”.
É nessa cumplicidade de classe que reside a mensagem central. Como num manifesto informal, o grupo que aqui se pronuncia deseja substituir a cidade usurpada, corrompida, com “esboços de uma cidade mais habitável, mais humana”. Leia-se, com o próprio condomínio murado e autosuficiente, literalmente um ponto de “fuga” situado mais além (ou mais aquém) da cidade real. Vejam: não se trata de um ponto distante, como os condomínios de Alphaville, Granja Viana ou Aldeia da Serra, por exemplo.
É um ponto mirífico, infinito.
O mais vultoso empreendimento de luxo de São Paulo contará, ao todo, com edifícios residenciais, empresariais, shopping center e spa, que permitirá uma programação exclusiva para as crianças “enquanto os pais fazem seu tratamento de beleza e ginástica”. Outra vantagem para os moradores é a possibilidade de “ir ao shopping a pé e não ter que carregar as sacolas”.
Evidentemente não será o caso de exigirmos da elite qualquer filantropia social, a não ser como resquício de bondade cristã. Quem poderá discordar de Eliana Tranchesi, dona da loja Daslu, ao afirmar que a responsabilidade sobre a favela vizinha à loja é do governo, e não dela? Igualmente, quem poderá refutar o fato de que o mercado de luxo é o que mais cresce em São Paulo, e precisa ser atendido à altura de suas aspirações? Ocorre que o cinismo revanchista dessas aspirações revela um total esfacelamento social, reflexo do cancelamento da ilusão desenvolvimentista de integração nacional acalentada algumas décadas atrás. Hoje, é evidente que o atual divórcio entre economia e nação produziu um dramático vácuo de “perspectivas” para uma grande parcela dos cidadãos. Enquanto que, para outros, indica um ponto cego de escape. Um ponto de fuga que só olhos muito iluminados são capazes de enxergar.
CENTRAL PARK PRIME: MUNDO SHOWROOM
Houve um tempo em que as novidades da vida doméstica no Brasil vinham associadas a nomes franceses: desde os utensílios de casa, como os abat-jours, até os novos ambientes, como as suítes, além de empregados da família, como os chauffers. Nas últimas décadas, como sabemos, esse imaginário foi soterrado pelo mundo do closet, do lobby, do living, do parking, do valet, do flat, do loft, do delivery, do fitness, do lounge, do home theater, etc. Na verdade, a invasão da língua inglesa trouxe de brinde uma profusão de coisas e serviços. Não só de objetos de consumo (que você possa comprar em uma loja), mas, sobretudo, de ambientes (no caso da arquitetura) e atividades que vieram preenchendo a vida diária com novas necessidades, saturando-a.
Essa saturação, por sua vez, é segmentadora. Isso é evidente no campo dos empreendimentos imobiliários comerciais, dominados cada vez mais pela febre do exclusivo, do personalizado e do privativo. Por exemplo, uma das atuais ofertas dos novos conjuntos de apartamentos em São Paulo é o dog walk: percurso exclusivo para passeios com cachorros nos jardins internos dos condomínios. Outro “conceito” que prolifera no mercado é, curiosamente, um híbrido inglês-francês: o Home Boutique, um residencial de alto padrão com apartamentos pequenos, que oferece serviços como adegas climatizadas com sommeliers próprios, e personal trainers (note-se a permanente alternância entre os dois mundos: o francês e o inglês).
Mas a mais recente manifestação desse curioso estado de coisas é um lançamento que tem aparecido maciçamente nas páginas de propaganda de jornais, revistas e propagandas de televisão: o Central Park Prime, no bairro do Tatuapé, na Zona Leste.
O seu “conceito” é o mesmo de inúmeros outros conjuntos lançados recentemente: viver dentro de um parque. O Prime, no entanto, vai além, e promete ser “o primeiro apartamento com árvore privativa de São Paulo: uma árvore no parque com o nome de cada família”. E estampa, junto ao slogan, um brasão dourado – como se fosse um selo de qualidade, mas deve ser o timbre de cada família na tabuleta de madeira – com um nome fantasia: Almeida.
Mas a campanha não termina aí. Além da árvore privativa, também somos apresentados ao conceito de Hobby Box: uma garagem exclusiva para cada apartamento, “que você pode decorar e equipar para receber seus veículos e objetos mais preciosos”. Frase que, novamente, vem acompanhada, na página dupla dos jornais, da perspectiva artística de um ambiente com iluminação indireta e tons beges para paredes e piso (como se fosse uma sala de estar), em que carro, moto e bicicleta contracenam com prateleiras de livros e uma caixa de ferramentas dispostas de forma casual.
Qual é o pressuposto dessas promessas? Falar em fetichização da vida privada é muito pouco. O que há, sem dúvida, é uma exacerbação in extremis da idéia de posse. Pois se, de um lado, o bem coletivo da natureza foi seqüestrado na forma individualizada de uma única árvore, como se fosse um animal de estimação, de outro, o automóvel foi naturalizado e transformado em um membro da família, devendo ter um cômodo especialmente preparado para recebê-lo, como um bebê que chega da maternidade.
DASLU: SEM CAVALO NA ESTEIRA
Certa vez, anos atrás, ao visitar uma das edições da Casa Cor6, deparei-me com um “mini-haras” em que um cavalo puro sangue se exercitava sobre uma esteira. O evento, como um todo, era uma seqüência meio enfadonha de ambientes domésticos competindo entre si através da decoração, tanto mais redundantes quanto maior era o empenho em serem originais. Aquele cavalo, no entanto, ao mesmo tempo em que resumia perfeitamente a superficialidade do evento, destoava radicalmente do resto.
Mais do que real, era hiper-real, no movimento ritmado e sem esforço das patas, ao mesmo tempo que melancólico no olhar. Dava, involuntariamente, um sentido reflexivo àquilo tudo, suspendendo a obsolescência do efêmero, a falsidade do cenográfico, a imobilidade do mobiliário. Uma inusitada atualização do rondó de Manuel Bandeira: “Os cavalinhos correndo / E nós, cavalões, comendo...” (Estrela da Manhã, 1936).
Fui conhecer a loja Daslu7 perguntando logo pelo fitness center onde pudesse reencontrar, quem sabe, aquele cavalo em seu eterno exercício. Em vão. Lá, as camareiras vestem avental preto com babados brancos, e têm sempre cabelos lisos, ou alisados.
Lá, nem a evidente escassez de produtos importados, após a suspensão do seu esquema de contrabando, risca o verniz das paredes ou marca o gesso do forro.8 Pois o simulacro generalizado não dá margem a qualquer divagação. Como a bandeirinha dura que coroa o campanário do Shopping Market Place – retorcida como se estivesse tremulando –, ou os falsos profetas do Aleijadinho que adornavam a fachada do Banco Santos9, todos no mesmo eixo da Marginal do rio Pinheiros, a mansarda neoclássica da Daslu é um sonho de criança, mesmo que pouco inocente. Não é à toa que Eliana Tranchesi, dona da butique, tenha declarado com franqueza, após ser surpreendida fraudando a receita federal, que “além da Disney, deveria ter colocado mais Wall Street” em sua vida.10
Arquitetonicamente, a loja também funciona no registro Disney. O neoclássico ressuscitado é o estilo favorito de quem tem poder aquisitivo para circular internacionalmente, porém com a atenção voltada mais para Miami e Orlando do que para os grandes centros mundiais da moda – Nova York, Tóquio, Paris ou Milão. O próprio nome da loja – referência à associação de duas mulheres cujos [diminutivos] eram igualmente “Lu”: Lucia Piva de Albuquerque e Lourdes Aranha –, ilustra bem a ambição modesta dessas senhoras. Não é difícil perceber, portanto, que a Daslu está na retaguarda do mundo fashion. Ao invés de lançar tendências no mercado, como timbre de exclusividade e vanguarda, se apropria delas e as banaliza. É o que diz o especialista em luxo, o francês Gilles Lipovetsky, que em passagem por São Paulo desaprovou a timidez do seu maior ícone. Em sua opinião, ao invés de recorrer à imagem de respeitabilidade do neoclássico, elas “deveriam ter jogado com a criatividade hipermoderna”, chamado “o maior arquiteto do mundo, aí teria sido fantástico, seria como o luxo dos reis de antigamente, que faziam construções magníficas para a cidade”.11
Não é preciso ir tão longe. Em 1948, o arquiteto Frank Lloyd Wright já desenhava lojas para clientes que queriam associar suas mercadorias a arrojo e risco estético. Hoje, nenhuma loja de ponta pode se dar ao luxo de ser arquitetonicamente tímida. Como disse o arquiteto holandês Rem Koolhaas à dona da Prada: “Está na hora de você começar a vender arquitetura junto com as bolsas.” Uma sugestão sensata. Se no mundo contemporâneo imagem é quase tudo, não se pode pretender vender o que há de mais moderno em cenários passadistas ou tacanhos.
A Villa Daslu é um estabelecimento que evoluiu de uma butique familiar para um complexo comercial amplo e diversificado, incluindo grifes de roupas internacionalmente famosas, artigos eletrônicos, automóveis importados, utensílios domésticos, produtos de beleza, estandes de construtora, em uma construção que abriga 20 mil metros quadrados de área útil ao longo de cinco pisos. Mais uma vez segundo Lipovetsky, é uma “mistura de luxo com hipermercado” ou “duty-free”.
O contraste entre o exemplar paulistano e os novos edifícios (culturais e comerciais) construídos ou encomendados por grifes como a Prada, Dior ou Louis Vuitton em outras metrópoles é de fato gritante. Num esforço cada vez maior para transformar a marca em espetáculo, a moda busca, nesses casos, associar-se à arquitetura como signo de vanguarda. É o que explica o papel central dos novos prédios no marketing cultural das cidades globais. Assim, em que pese as diferentes linguagens de cada arquiteto, Rem Koolhaas, Herzog & de Meuron, Christian de Portzamparc, Toyo Ito ou Tadao Ando têm criado para as mais diversas grifes projetos sóbrios, etéreos, espetaculares, high tech, em que, muitas vezes, anódinos cubos de vidro são vestidos por “peles” – chapas metálicas perfuradas ou retículas serigrafadas com aberturas variáveis, desenhando tramas abstratas –, ganhando um aspecto fortemente sensorial. Notadamente, no caso da Prada, alternando a feição de galpão industrial ultra refinado (SoHo, Nova York), mobiliado por vitrines que são brutas gaiolas metálicas suspensas por trilhos, com a de espaço asséptico e emborrachado (Aoyama, Tóquio), onde os displays de vitrines se assemelham a plugs de Macintosh, e as treliças das fachadas compõem, com os espaços internos (pisos e paredes), um mesmo plano branco e moldável.
Forrada internamente por floreiras, carpetes, cortinas pesadas, lustres de cristal e leões de gesso, a Villa Daslu foi projetada por uma equipe liderada por Júlio Neves12, tendo seus interiores decorados por figuras como Jorge Elias e Sig Bergamin. Curiosamente, o pastiche neoclássico resultante não chega a ostentar uma monumentalidade à altura do referente histórico europeu, disseminado pelo mundo como signo de solidez e tradição normalmente emprestado a edifícios públicos. Construído com alvenaria rebocada e pintada, e não com monolitos de pedra, o prédio da butique aparenta uma certa inconsistência material, como se fosse feito de papelão – no pólo simetricamente oposto à imaterialidade minimalista da arquitetura contemporânea. Lembrando que se costuma chamar popularmente esse tipo de construção eclética e avantajada de “bolo de noiva”, poderíamos dizer que a Daslu se parece mais com um embrulho de presente do que com um Fórum Romano, apesar dos seus balaústres, frontões, frisos, cornijas e capitéis em tons de ocre e pardo.
Inaugurada em junho de 2005, a loja se ergue sobre a ruína de um edifício público: o centro de processamento de dados da Eletropaulo, cuja construção não chegou a ser finalizada, juntamente com o edifício principal do conjunto, ao lado, que permaneceu no esqueleto por mais de uma década. São prédios fantasmas, assim como tantos emblemas da modernização brasileira em sua fase “pós-catastrófica”: usinas atômicas que não funcionam, estradas devoradas pela floresta, trens sucateados, etc.13 Quer dizer, a transformação do edifício anexo da Eletropaulo em Daslu parece a lendária conversão da tragédia em farsa descrita por Marx, quando a história se repete duas vezes (aqui, uma ao lado da outra, visíveis da Marginal). No caso, a ostentação do supérfluo, do hedonismo individualista, aparece como um produto deslocado daquele titânico esforço “desenvolvimentista” de modernização infraestrutural do país, hoje uma miragem.
Megastore de luxo, a Daslu é uma mistura de maison de estilista com loja de departamentos sob uma roupagem de villa renascentista. Na prática, é um bunker fortificado, freqüentado por uma elite que vive em condomínios fechados e prefere proteger-se entre seus pares sob um décor aconchegante a ter que circular em centros de compras massificados e impessoais. Vem daí o único aspecto original da Daslu: trata-se de uma casa com escala e programa de shopping center. Ou, em outras palavras, um estabelecimento comercial movido pela ideologia doméstica. Poderíamos dizer, nesse sentido, que é uma tradução edificada do velho patrimonialismo brasileiro herdado de séculos de história: o costume de tratar questões públicas como se fossem privadas, com vistas a obter privilégios – o que as fraudes nas importações praticadas pela loja confirmam e reforçam.
No entanto, nesse caso, ficamos sempre com a sensação de que as categorias críticas tradicionais, embora aplicáveis, acabam superanalisando o fato. Aqui, o simulacro é movente demais, e a Daslu não tem sequer um cavalo malhando na esteira para nos lembrar dos sacrifícios necessários a cada segundo para manter tudo aquilo impecável.
Dada a vinculação emotiva com a casa onde a loja começou, somada à vontade de aproximar-se simbolicamente das maisons de alta costura, onde os grandes estilistas recebem seus clientes eleitos, a Daslu evita ao máximo aparentar-se a um shopping center, fato que pode ser percebido já na implantação do edifício no terreno. Pois, enquanto o shopping é uma caixa fechada, que demarca claramente em seus átrios e portais o limite entre ele e a cidade, reproduzindo a estrutura urbana em seu interior, a Daslu é uma fortaleza de muros e guaritas que guarda uma “jóia” no miolo, com espaços envoltórios que fazem alusão a uma informalidade e dispersão bucólica. A negação da cidade deixa de ser ostensiva e passa subliminarmente a representar um estado de espírito, que nos convida pouco a pouco a desfrutar o fato de fazer parte desse grupo, como convivas de uma recepção de gala. Logicamente, nesse caso, a cidade não é reproduzida em seus espaços internos, mas abstraída. É que a origem dos shoppings está nas galerias comerciais urbanas, como as famosas passages parisienses do século XIX, enquanto a “inspiração poética” da Daslu é a villa italiana: palacete isolado no meio do campo.
No shopping, por mais que a saturação de informações convide à dispersão sensorial, existem normalmente espaços organizadores do conjunto, vazios com pés-direito enormes, nos quais se pode debruçar a cada andar, ou ler a organização vertical do edifício em passeios por elevadores panorâmicos ou escadas rolantes. Igualmente, ali circulamos sempre por corredores de distribuição que têm por função dar acesso às lojas, ao mesmo tempo que separá-las. Já na Daslu acontece o inverso: o modelo é o labirinto, com a informalidade de uma casa. Isto é, caminha-se erraticamente sempre por dentro de lojas, e não por espaços frios de distribuição, o que faz com que as escadas apareçam como surpresas no percurso, parecendo estarem espalhadas ao acaso, sem formar um sistema integrado. De um ambiente a outro, cruzamos muitas vezes através de passagens que são, não raro, opressivamente acanhadas, ao mesmo tempo em que os pátios comuns que eventualmente encontramos como desafogo visual são pequenos e enclausurados, envolvidos por janelões no alto que “olham” para dentro. Está claro que tais características não são erros de projeto. É a claustrofobia charmosa de uma vila (napolitana, por exemplo) que se procura mimetizar, numa estetização da promiscuidade doméstica daqueles espaços compartilhados.
Como não poderia deixar de ser, o dificultoso percurso ascensional é coroado por um gran finale. Depois de galgar alguns pisos entre aborrecimentos e prazeres – conforme o estado de ânimo de cada cliente –, somos presenteados por uma visão panorâmica de São Paulo, tendo a Marginal e o rio Pinheiros como tela, e o Jockey Club ao fundo, com cavalinhos esparsos aparecendo de quando em vez. É nessa hora que avistamos também um helicóptero preto pendurado no vazio, gravado com as iniciais da loja. A insinuação é clara: a cidade é uma contingência. Deve ser saltada, sobrevoada, subtraída.|
Reunião de artigos publicados no jornal Folha de S. Paulo e na revista Piauí, entre 2006 e 2007, e também reunidos em: Guilherme Wisnik. Estado crítico: à deriva nas cidades. São Paulo : Publifolha, 2009.
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1 Cf. A Cidade Vertical. O Estado de S. Paulo, 27/7/1951.
2 O Primeiro Comando da Capital (PCC) é uma organização criminosa comandada por presidiários detentos e foragidos, existente desde o início dos anos 1990.
3 Júlio Neves foi presidente do Museu de Arte de São Paulo (MASP) por sete gestões, de 1994 a 2008.
4 Em 1996 a enorme favela do Jardim Edith foi removida pelo então prefeito Paulo Maluf para a obra de construção da nova avenida. Quase todos os moradores foram levados pela Prefeitura para favelas junto à represa de Guarapiranga, uma área considerada de proteção aos mananciais.
5 Lei criada em 2001 que define práticas participativas na criação dos Planos Diretores Municipais, servindo como instrumento de oposição à especulação imobiliária.
6 A Casa Cor é um evento anual de decoração que acontece em algumas cidades brasileiras. Em geral, o evento não ocorre dentro de massificados pavilhões de exposição, mas em ambientes “alternativos”, como casarões abandonados, hospitais desativados ou Jóquei Clube.
7 A Villa Daslu é um estabelecimento comercial de São Paulo, uma butique ligada sobretudo ao comércio de roupas, e considerada o maior “templo de consumo de luxo” do Brasil.
8 Em 2005 a polícia descobriu que a loja praticava importação irregular de produtos, fraudando a receita federal. Os donos da Daslu foram presos durante algum tempo, e recentemente condenados pela justiça.
9 Preso em 2006 por lavagem de dinheiro, o banqueiro Edemar Cid Ferreira desocupou o edifício do Banco Santos, entregando-o para aluguel.
10 Eliana Tranchesi. Estou como criança deixando a Disney abruptamente. Folha de S. Paulo, 24/09/2006. Entrevista concedida a Gilberto Dimenstein.
11 Ícone máximo do luxo é comprar emoções, não produtos. UOL Moda, 25/8/2005.
12 Vide nota 4.
13 Cf. Roberto Schwarz. Fim de Século. Seqüências Brasileiras. São Paulo : Companhia das Letras, 1999, p. 160. Nessa passagem, o autor parte de reflexões propostas por: Robert Kurz. O Colapso da Modernização. São Paulo : Paz e Terra, 1992.