1.
Estava habituado a ver aquela nesga de espaço público em frente ao cinema Batalha, aproveitada, nos fins de tarde, pelos skaters (com as suas rastas e roupas garridas); há poucos dias, deparei com um grupo de jovens indianos (com os seus penteados aprumados e as suas camisas brancas metidas dentro das calças) a jogar cricket. A assistir à novidade estavam algumas pessoas de idade, sentadas nos degraus e visivelmente satisfeitas. Pessoalmente, não sou fã; mas fiquei a pensar nas voltas que o cricket dá.
2.
A riqueza do BAPS Mandir – o maior templo Hindu da Europa –, localizado na zona norte de Londres, reside essencialmente nas suas pedras lavradas, também muito viajadas. A conclusão desta obra, em 1992, foi como um coming out da comunidade indiana radicada em Inglaterra e, actualmente, é uma forte atracção turística da City, para além de local de peregrinação. O templo é integralmente feito em blocos de pedra extraídos de Itália e da Bulgária, que viajaram primeiro à Índia para serem trabalhados e esculpidos pelas mãos de uma subcasta ancestral de artesãos residentes no Gujarat.
Regressaram para serem aparelhados in loco como um gigantesco puzzle tridimensional, numa zona suburbana de Londres. Naturalmente, esta operação fez disparar o orçamento da obra – teria ficado muito mais barato se os artífices tivessem sido transportados para Londres. Contudo, não acredito que esta alternativa tenha sido considerada pelos devotos do BAPS – um movimento religioso Hindu muito afluente – ou mesmo pela comunidade indiana em Londres, que ajudou a financiar e trabalhou voluntariamente para a obra. Por duas razões: primeiro, a riqueza das pedras está na sua aura religiosa e esta teria ficado consideravelmente enfraquecida se os artesãos as tivessem esculpido fora da Índia; segundo, porque, com esta operação, a comunidade indiana quis também enviar uma mensagem aos ingleses. Evitando assim ter de negociar com as autoridades a vinda de centenas de trabalhadores, a comunidade imigrante demonstrou também a sua riqueza económica, nunca abdicando da sua ostentação espiritual.
3.
A ostentação material e espiritual que faz sobressair o BAPS Mandir na paisagem londrina é lugar-comum na Índia, onde a religiosidade não está dissociada dos afazeres mundanos do dia-a-dia, como na Europa. Tudo inspira e respira religiosidade, como se houvesse uma bactéria contaminando o oxigénio, e todos procuram o enriquecimento espiritual através de uma constante e metódica progressão, acumulando pontos de karma. À ausência da dicotomia entre religião e materialismo soma-se a aparente promiscuidade generalizada entre riqueza e pobreza extremas, especialmente nas grandes cidades indianas. Aqui, a ostentação dos templos e edifícios privados convive lado a lado com a miséria e a desorganização. Esta é uma das diferenças civilizacionais que mais desconcentra os visitantes europeus: a imoralidade do facto de, por exemplo, um bando de crianças e bebés miseráveis estar a pedir à porta de um hotel de luxo; ou a obscenidade de um trabalhador conseguir sobreviver diariamente com metade de uma gorjeta deixada num restaurante mediano; ou ainda a profunda incongruência de ver um monte de lixo e imundície a envolver um jardim bem tratado. Assim, nas metrópoles indianas, apesar da omnipresença da religião entre as pessoas, os espaços colectivos – os passeios, as ruas, os terreiros ou jardins e ainda os edifícios estatais – não parecem participar de qualquer aura religiosa; são antes maltratados, inóspitos e até hostis.
É lugar comum dizer-se que, na Índia, nunca se pode estar verdadeiramente sozinho – nas cidades, tão-pouco parece ser possível escapar verdadeiramente à pobreza e a miséria. O luxo e ostentação dos ambientes dos afluentes parecem cenários de momentos efémeros e pecaminosos perante a proximidade das eternas dificuldades do povo indiano.
Contudo, penso que o fenómeno que os europeus vêem como uma violenta promiscuidade (e também uma falta de cultura estética) nas cidades da Índia, constitui, no fundo, uma profunda dicotomia, uma clivagem subconsciente e esquizofrénica na sociedade indiana.
4.
É notório como a confusão, a sujidade e a pobreza dos espaços públicos e colectivos das cidades contrasta com a ordem cartesiana, o asseio imaculado e a riqueza – por vezes apenas afectiva, outras vezes também material – dos lares indianos nessas mesmas cidades. Uma parte considerável da população não tem – nem nunca terá – uma habitação condigna. Mas aqueles que possuem uma casa ou um apartamento mantêm o seu interior como um santuário de ordem, paz e asseio para se refugiarem do mundo exterior. Os lares também são templos. Porque o mundo exterior, especialmente os espaços colectivos e os equipamentos públicos das grandes cidades, são não apenas descurados mas efectivamente maltratados e agredidos quotidianamente. Sintetizando, nas cidades indianas, os espaços privados (ou semiprivados) constituem um local de ordem, paz e riqueza (material e espiritual) enquanto que os espaços que pertencem a todos são desorganizados, hostis e pobres – são, em duas palavras, a selva urbana.
E o aproveitamento dos espaços colectivos para locais de assembleia, convívio ou lazer, como acontece na Europa – as praças ou esplanadas, por exemplo –, são praticamente inexistentes. Por outro lado, importa realçar que as aldeias “tradicionais”, fora dos circuitos turísticos, mesmo que habitadas por pessoas muito pobres, mantêm uma organização colectiva e um espírito de entreajuda que se reflectem na ordem, limpeza e cuidado dos seus espaços comuns.
5.
Qual a origem desta dicotomia enraizada na sociedade indiana? Penso que temos de a procurar, antes de mais, numa espécie de “castração” da cultura de espaço público que ocorreu progressivamente a partir das invasões muçulmanas, se prolongou durante as várias convulsões que afectaram o subcontinente até o século XIX e culminou com a imposição da Pax Britannica.
Ao que tudo indica, nos grandes meios urbanos do período pré-muçulmano, como Patna ou Varanasi, assim como naqueles que permaneceram hindus até mais tarde, como Vijayanagara, os locais colectivos detinham um papel importante na vida urbana. Os habitantes reuniam-se nos mercados ou nas grandes avenidas ladeadas por lojas, fruíam dos espaços defronte dos templos, banhavam-se em enormes tanques e participavam frequentemente em festividades patrocinadas pelos soberanos que se alargavam aos espaços comuns das cidades.
À medida que a Índia foi sendo ocupada pelas sucessivas vagas de invasões muçulmanas, entre os séculos IX e XV, a vida nas cidades mudou consideravelmente, enquanto que o meio rural manteve-se em boa medida inalterado. Nas cidades, os novos ocupantes – menos cosmopolitas e tolerantes – instituíram as suas sedes de poder, submetendo os habitantes hindus a uma posição subserviente. Para além da questão das perseguições ou imposições religiosas, os muçulmanos introduziram uma cultura urbana mais rígida e centrada pelas suas cortes e palácios. Estes concentravam a riqueza e polarizavam a cultura e o lazer, enquanto que a restante cidade se amontoava em seu redor desprovida de dignidade. De modo geral, pode considerar-se que, até à relativa estabilização trazida pelas vitórias de Babur, no século XV, as cidades sob domínio muçulmano atravessaram um período conturbado de regressão ou estagnação; e as cidades do Industão, em geral, sofreram continuamente com guerras internas entre os potentados muçulmanos e hindus.
6.
A presença europeia nas cidades costeiras, a partir do século XVI, não veio a melhorar a situação dos habitantes hindus. A atitude portuguesa era tão ou mais dura que a muçulmana, arrasando templos, proibindo as demonstrações públicas das religiões que não a cristã, enfim, tornando as cidades ainda mais estranhas e alienadas dos indianos. Também estabeleceram em vários casos a segregação das cidades em sectores católicos e não-católicos; contudo, nos sectores não-católicos, a religião hindu era geralmente perseguida. Naturalmente, o lar arraigou-se como símbolo de paz, continuidade e segurança, para além de constituir muitas vezes o último reduto da religião.
Mas coube aos ingleses a tarefa de colonizar verdadeiramente a Índia, derrotando sucessivamente os outros europeus, os muçulmanos e a Confederação Marata, e estabelecendo uma administração homogénea apoiada em infra-estruturas e estruturas eficientes e pragmáticas. Esta colonização, em pleno funcionamento na segunda metade do século XIX, representou novo golpe para a cultura urbana dos indianos.
Apesar da tolerância religiosa da Pax Britannica e do crescimento e progresso das cidades, não podemos esquecer que estas mantinham uma forte componente de segregação racial e serviam, no fundo, os interesses do poder colonial. A separação entre a cidade “europeia” e a cidade “nativa” entranhou-se por toda a Índia. De um modo geral, os ingleses ignoravam a cidade nativa, onde as condições medievais aliadas ao crescimento populacional contribuíam para o caos e para as doenças. Na cidade “europeia”, naturalmente que se preocupavam com os espaços públicos – os grandes edifícios, as avenidas, os jardins, etc. –, mas estes não tinham grande significado nem podiam sequer ser apropriados pela maioria da população indiana. Generalizando, não eram feitas para eles mas sim para os europeus e para pequenas elites ocidentalizadas, para o “outro” colonizador e hostil.
7.
Ainda assim, as cidades cresceram e prosperaram e algumas instituições e símbolos tornaram-se indispensáveis à população indiana (como as universidades laicas, os hospitais, as estações de caminhos-de-ferro e o cricket) no momento em que os seus cidadãos mais inspirados começavam a contemplar uma Índia independente. E muitos viam o seu futuro nestas cidades, cheias de monumentos ingleses mas sem os ditos, fruindo dos seus jardins, cafés ou clubes; outros, como Gandhi ou Vinoba Bhave, viam nas cidades a corrupção e a ruína das tradições rurais da Índia e do espírito de entreajuda e auto-suficiência presente nas populações das aldeias. Novamente, foi nas cidades que se cometeram as piores atrocidades durante a separação entre Índia e Paquistão, em 1947-1948.
Sob Nehru, o desenvolvimento da Índia independente contribuiu para o progresso das cidades e da indústria, em detrimento das tradições rurais; lentamente, os indianos começaram a reapropriar as suas cidades. Este processo, relativamente equilibrado e planeado até aos anos 70 do século XX, foi posto em causa pelo boom populacional das cidades indianas que, aliado ao liberalismo económico dos anos de 1980, contribuiu decisivamente para a degradação e miséria das cidades, à medida que as populações rurais começaram a emigrar maciçamente para meios urbanos que não estavam minimamente preparados para as receber. Entre 1980 e 2000, a população da área metropolitana de Bombaim (actual Mumbai) duplicou, de seis milhões para 12 milhões. Com grande parte da população a viver em extensos bairros de lata e outra grande parte a viver em zonas urbanas ou suburbanas degradadas e caóticas e a cidade toda a sofrer de uma tremenda pressão física na sua zona central – muitos questionavam qual o futuro daquela e de outras metrópoles que pareciam prestes a rebentar a qualquer momento ou a ficarem submergidas pelo lixo provocado pelos seus habitantes.
8.
O século XXI alvoreceu com uma forte sensação de progresso e esperança para a Índia e para a sua classe média urbana. Apesar de continuarem a ser locais confusos e dramaticamente problemáticos, as metrópoles já não crescem ao ritmo assustador ou ao sabor caótico da há vinte anos. Várias instituições ocidentais – como os centros comerciais ou os cafés – estão em franco desenvolvimento e são rapidamente apropriados por todas as camadas da população. Começa-se a debater conceitos como a rua pedonal ou o melhoramento da paisagem urbana, dentro de estratégias de sustentabilidade. E, à medida que os todos os cidadãos começam novamente a fruir amenamente dos espaços públicos e semi-públicos das cidades – tomando como exemplo a omnipresença do cricket que, por si só, é responsável pelo aproveitamento e relativa dignidade de uma miríade de pequenos terreiros dentro das cidades –, a dicotomia entre espaço privado e espaço público vai-se esvanecendo. Os indianos estão a querer fazer as pazes com as suas cidades.|