Face ao que por cá faz falta, o mundo lá fora parece cheio de alternativas. Nesta saída de emergência da sociedade portuguesa, também a arquitectura avistou um horizonte. É “lá fora” que se procura o mercado de trabalho que escasseia, o consolo para as mais que justificadas incertezas locais. A mobilidade do Espaço Shengen e do Programa Erasmus tornou-se língua franca no ensino universitário e na formação profissional de gerações recentes. Mas depois desta sociologia – aquela que promove o lugar-comum do jovem arquitecto em Basileia ou Roterdão – fica a pergunta: o que fazer no regresso a casa? A questão é com certeza mais problemática que a enésima apologia da diáspora lusa. Na verdade, as experiências além fronteiras podem rapidamente perder a sua intensidade por ausência de meios e oportunidades. Sendo que o País continua periférico aos circuitos internacionais da encomenda, da crítica e da academia, resta o desafio de “ir para fora cá dentro”.
Pedro Rogado é um desses casos: continua de passagem. Nasceu em Lisboa em 1972, mas obteve o seu diploma em Bruxelas em 1997.
Colaborou com Álvaro Siza na ampliação não concretizada do Stedelijk Museum de Amesterdão e, de volta a Portugal, com Pedro Pacheco e Marie Clément nos equipamentos da Nova Aldeia da Luz. Em 2000, iniciou actividade própria. A partir daí o seu atlas liga-se ao dos Ateliers de Santa Catarina, em Lisboa. Congregando um conjunto de pessoas no mesmo espaço, o seu elenco interdisciplinar nunca foi programado mas sim a mera circunstância que reuniu artistas, designers e arquitectos. Nesta vizinhança, Pedro Rogado inaugurou modos diferentes na sua actividade.
Projectos como Glocal Dwelling e Vertizonte resultaram de encontros com artistas. Glocal Dwelling (1999) foi desenvolvido com Sancho Silva e Pedro Portugal para a Experimenta Design, um protótipo de estrutura sem sítio nem uso determinado. O seu esqueleto de perfis metálicos dispunha-se a todas as indumentárias: um monte alentejano, um abrigo para prostitutas, uma pequena embarcação. Entre a ironia e o engenho, estas encarnações celebravam o nomadismo que acabou por estacionar num quiosque em Lagos (2005). No seu trânsito, a construção balança entre classificações sem grande esforço. Vertizonte (2004), com Sancho Silva, também não era arte nem arquitectura, mas antes um artefacto construtivista redescoberto numa sala da Galeria ZDB em Lisboa. O seu volume piramidal de contraplacado atravessava o espaço por entre portas indo além do edifício. No interior, um túnel afunilava até uma fresta.
Para chegar a ela, o visitante ficava deitado e descobria a vertigem de um novo horizonte: a rua sobre a qual estava suspenso.
Mas para lá destas experiências fica a arquitectura propriamente dita. Pedro Rogado tem vindo a realizá-la de maneira idêntica, colaborando com outros. Esta difusão instaura uma hibridez no seu trabalho que de imediato o desvia de miméticas identificáveis. São obras informais, sem grandes fetiches de geometria ou pormenor, mas com o devido rigor. Numa casa em Palmela (2006), em co-autoria com Catarina Almada Negreiros, um diagrama holandês encontra-se com o vernáculo português numa homenagem a Mies van der Rohe. Os seus módulos adicionados e subtraídos recebem azulejaria e tijoleira, mas também perfis metálicos. Nem as fontes associadas a estas soluções se tomam como canónicas, nem o seu uso é reverencial. É do gozo desta mistura que resulta a leveza do conjunto, que também não incorre em nenhuma anedota semiótica. Trata-se apenas de uma boa casa, em constante circulação entre dentro e fora.
Essa arte combinatória tem um exemplo mais recente na Casa de Vilamoura (2008). O declive do terreno é negociado por socalcos, nos quais a construção se desdobra. Os diversos volumes são rematados por coberturas que se projectam em linhas horizontais, numa outra alusão a Mies. Mas estas caixas não são imaculadas como as do mestre alemão e suas réplicas nacionais. Por pragmatismo elas apresentam caixilharias em alumínio anodizado e, novamente, tijoleira tradicional que restitui uma temperatura mediterrânica ao conjunto. No final, a sequência dos espaços e pormenores adquire um nível de complexidade próximo da sofisticação da arquitectura residencial de John Lautner. Como nas suas moradias da Califórnia, referências eruditas são cruzadas com outras mais populares num espírito lúdico e descomprometido. Essa liberdade de movimentos parece ser o meio natural de Pedro Rogado, o seu “lá fora, cá dentro”. Aguardam-se, pois, os próximos passos. |