Na cidade de Chongqing no Sudeste da República Popular da China (RPC), um casal resiste durante três anos a negociações com um construtor que tenciona implementar um projecto imobiliário no imenso quarteirão – totalmente expropriado – onde a sua casa permanece isolada. O desfecho deste caso recente, que ficou conhecido como Nail House ou Casa Prego, é um indicador do género de diálogo mantido entre o Poder e a Sociedade Civil na China; e mais um retardar da afirmação dos direitos privados neste país. Num episódio semelhante, uma outra Casa Prego foi demolida na mesma semana em Pequim, no lote onde se está a construir a nova sede da CCTV (China Central Television). O processo atrasou a sua conclusão, que não se cumpriu a tempo dos Jogos Olímpicos.
Na história recente da China, estes episódios de manifestação extrema e heróica do indivíduo através do poder de resistência passiva têm-se afirmado progressivamente como uma forma inovadora de expressão social. Como outros, o fenómeno das Casas Prego tem o potencial de proliferar como reacção ao crescente número de campanhas de relocação de populações promovidas pelo Governo Central da China.
Um outro exemplo é a reacção motivada pelo plano de aterros do Governo da Região Administrativa Especial de Hong Kong, que tenciona aterrar toda a faixa costeira de Central até Wanchai – o CBD (Central Business District) e centro histórico da cidade – ocupando-a com vias rápidas e novos lotes comerciais de grande dimensão sobre a baía. Este processo deu início a uma longa disputa pelo direito ao espaço cívico, mobilizada por grupos locais ambientalistas e de interesse cívico.
Através da promoção de concursos de ideias para valorizar a frente marítima de Victoria Harbour, o status symbol da cidade e espaço público por excelência de Hong Kong – alguns abertos a toda a população, pela sociedade civil, liderada pelas classes profissionais (que em Hong Kong se emanciparam mais precocemente do que a classe média) –, assistimos à utilização do planeamento como instrumento de luta cívica e crítica às políticas de aterros sistemáticos e de tit-for-tat entre o Governo e os interesses do real-estate.
A demolição do cais histórico do Star Ferry em Central, em Dezembro de 2006, enquadrada neste plano de expansão do Governo, teve um efeito traumático na sociedade de Hong Kong. A pouca abertura ao diálogo e as pressões populares levam Hong Kong à esquizofrenia: enquanto os trabalhos de terraplanagem prosseguem no coração de Hong Kong, o debate sobre a sua legitimidade cívica, social e legal continua.
O CASO DE MACAU
Nos últimos dois anos, a sociedade civil de Macau também se viu confrontada com um plano urbanístico do Governo que ameaçava tapar toda a paisagem do monte da Guia – a encosta natural e histórica que marca a vista oceânica de aproximação marítima à cidade. O monte da Guia é coroado pelo Forte onde se localiza o Farol da Guia, de 1865, que, para além de ser o primeiro farol moderno construído na costa da China, é, juntamente com a fachada das Ruínas de São Paulo, um ícone da classificação do centro histórico de Macau como Património Mundial pela UNESCO.
O facto de existir um lapso na delimitação da zona de protecção do Farol, conjugado com a revogação oficial dos limites altimétricos para as áreas do ZAPE (Zona de Aterros do Porto Exterior) e Lagos Nam Van (Fecho da Baía da Praia Grande), permitiu que este plano se transformasse numa corrida de apostas altimétricas. O plano de urbanização propunha a construção de uma muralha contínua de torres que subiam até 45 metros acima da cota do Farol. Nas imagens 3D tiradas do Youtube, os volumes azul claro representam o plano elaborado inicialmente e os azul-escuro representam as contratações (ilícitas?) integradas na versão final do plano apresentado publicamente.
Os meios profissionais, associativos e académicos, assim como novos grupos que se organizaram espontaneamente em defesa do Farol, mobilizaram-se em bloco contra esta implantação. Os blogues anónimos e o Youtube foram os instrumentos que permitiram quebrar o pacto de silêncio na sociedade chinesa de Macau: depois de 450 anos de silêncio e Bonsai cultural, Macau saiu do seu sonho de Bela Adormecida. A notícia de insatisfação social chegou à UNESCO e ao Governo Central da RPC que passou à acção, implementando um plano altimétrico abrangente para toda a bacia Sul de Macau.
KAIFONGS EM PERDA
Historicamente, em Macau e em Hong Kong, o diálogo e consulta à opinião pública eram assegurados pelos kaifongs ou associações de entreajuda, agremiações de moradores que funcionavam como intermediários com os governos coloniais no passado. Hoje, como bem ilustram os casos acima descritos, com a transformação destas sociedades coloniais em Regiões Administrativas Especiais, num país ditatorial em desenvolvimento onde a negociação social começa a acontecer, os kaifongs têm-se revelado pouco representativos de sociedades que se querem emancipar.
Todos estes fenómenos, de tenso e moroso braço--de-ferro, ilustram bem o tipo de engenharia social contemporânea na China.
Há processos e parâmetros ocidentais que dificilmente serão alcançados em modelos alternativos ou pós-coloniais. Isso não mede o sucesso de um modelo social. Apenas o poderá definir por ausência. Cada modelo só se justifica dentro da sua territorialidade.
A lógica de planeamento na RPC mantém uma colagem estrita à esfera política neo comunista chinesa, mantendo-se, portanto, distante da classe profissional e pouco vulnerável à novidade social e conceptual.
O sistema de decisão chinês pode ser definido como um sistema de T invertido, por oposição ao sistema piramidal, onde cada decisão ou ideia é sucessivamente testada e afinada no sentido do consenso razoável ou possível. Na lógica do T invertido, cada decisão é tomada superiormente sem filtros ou testes à sua implementação. O embate que a perna vertical do T produz na sociedade horizontal provoca um entroncamento de conflito, que se assume como único ponto onde se pode definir uma resolução ou consenso forçado, através de convulsões como o são as Casas Prego, e os movimentos cívicos acima descritos.
ESTRATÉGIA DE MARKETING
Na RPC, a importância da arquitectura como forma de propaganda democrática, e como tentativa de renovação da imagem de um modelo que se preserva dogmático e conservador, é representativa da necessidade de imagem de marketing que o país sente que precisa. A arquitectura tem sido utilizada como instrumento de representação de um consenso e imagem social que ainda não existem. Imagem que o Governo Central da RPC tenciona projectar para a Comunidade Internacional.
Não se pode compreender os fenómenos sociais no espaço chinês sem a noção do código Guanxi1, que define a etiqueta do comportamento das relações. De acordo com o Guanxi, o diálogo não deverá ser directo. No debate, a divergência de leituras de um facto tem de ser exposta na temporalidade extrema entre a memória e o esquecimento, de modo a evitar o confronto e manter a descolagem entre as partes. O facto de na língua chinesa a palavra-conceito de “esquecimento” ser muito próxima à de Guanxi, explica parcialmente a não-linearidade dos códigos de diálogo.
Apresentando certas semelhanças formais com o exercício de tai chi ou um arranjo de ikebana, este dispositivo temporizador de distância permite que todas as partes mantenham “a face” e se possam encontrar numa posição complexa de compromisso. As manobras desse compromisso são proporcionais de modo a que nenhuma das partes (idealmente) perca o seu status ou posição. |